{"id":626,"date":"2020-02-26T11:02:59","date_gmt":"2020-02-26T14:02:59","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?p=626"},"modified":"2024-12-05T02:47:10","modified_gmt":"2024-12-05T05:47:10","slug":"por-que-progressistas-nao-entendem-conservadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/por-que-progressistas-nao-entendem-conservadores\/","title":{"rendered":"Por que progressistas n\u00e3o entendem conservadores?"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-medium-font-size\" style=\"text-align: justify;\"><b>Como entender as tens\u00f5es entre moralidades rivais e seus desdobramentos para o campo da pol\u00edtica e da religi\u00e3o? O livro de Haidt, j\u00e1 cl\u00e1ssico, \u00e9 um guia seguro para as respostas necess\u00e1rias.<\/b><\/p>\n<p><strong>Estado da Arte<\/strong><br \/>\n04 Outubro 2018 | 19h31<br \/>\n<i><a href=\"https:\/\/cultura.estadao.com.br\/blogs\/estado-da-arte\/por-que-progressistas-nao-entendem-conservadores\/\">https:\/\/cultura.estadao.com.br\/blogs\/estado-da-arte\/por-que-progressistas-nao-entendem-conservadores\/<\/a><\/i><br \/>\n<em>por\u00a0Bruna Frascolla<\/em><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"637\" class=\"wp-image-631\" src=\"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/tumblr_inline_nykdjeG3kc1qzsjbi_1280-1024x637.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/tumblr_inline_nykdjeG3kc1qzsjbi_1280-1024x637.png 1024w, https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/tumblr_inline_nykdjeG3kc1qzsjbi_1280-300x187.png 300w, https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/tumblr_inline_nykdjeG3kc1qzsjbi_1280-768x477.png 768w, https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/tumblr_inline_nykdjeG3kc1qzsjbi_1280-624x388.png 624w, https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/tumblr_inline_nykdjeG3kc1qzsjbi_1280.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jonathan Haidt \u00e9 um psic\u00f3logo social\u00a0<em>best seller<\/em>\u00a0nos Estados Unidos. Em\u00a0<em>The Righteous\u00a0\u00a0Mind\u00a0<\/em>(Vintage, 2012), ocupa-se da polariza\u00e7\u00e3o ocorrida por l\u00e1 entre democratas e republicanos. O motivo de a esquerda ir t\u00e3o mal nos Estados Unidos seria a sua moralidade, incapaz de dialogar com outros grupos pol\u00edticos. Tudo se passa como se o homem tivesse uma esp\u00e9cie de paladar moral, e a intelectualidade s\u00f3 satisfizesse um ou dois sabores. Ent\u00e3o, quando o conservador fala de patriotismo, religi\u00e3o e muitas outras coisas, ativa o paladar completo. O maior \u00eaxito do conservador n\u00e3o \u00e9 um problema em si, nem causa polariza\u00e7\u00e3o. O problema, e a causa da polariza\u00e7\u00e3o, \u00e9 a intelectualidade progressista ou n\u00e3o ser capaz de entender que pessoas de extratos sociais diferentes t\u00eam uma moralidade diferente, ou de aceitar que n\u00e3o h\u00e1 problema nenhum com isso. Em outras palavras, h\u00e1 um problema de aceita\u00e7\u00e3o da diversidade da parte dos que pregam a aceita\u00e7\u00e3o da diversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Haidt narra a sua trajet\u00f3ria pessoal junto com a forma\u00e7\u00e3o de sua teoria. Era um progressista clich\u00ea interessado por moralidade e, por isso, devorou livros de antropologia que tratassem de tribos ex\u00f3ticas. Assim, constatou que a moralidade ocidental \u00e9 excepcional em compara\u00e7\u00e3o a um imenso conjunto de moralidades humanas, e isso porque a nossa \u00e9 muito mais enxuta. Basicamente, o que um bom ocidental teria de fazer \u00e9 n\u00e3o causar dano a outrem; seria a moralidade do cuidado. Pessoas s\u00e3o m\u00e1s por causarem dano, e s\u00e3o boas por fazerem o bem a outrem. Na maioria das outras culturas, h\u00e1 outras bases para a moralidade, como, por exemplo, a santidade e a autoridade (as pessoas s\u00e3o boas porque desempenham pap\u00e9is relevantes numa religi\u00e3o, ou porque s\u00e3o respeitosas com um grupo). Para testar a sua hip\u00f3tese, elaborou um question\u00e1rio com tabus sem dano a fim de entregar a indiv\u00edduos de outras culturas. A ideia era ver se eles condenam moralmente o indiv\u00edduo autor de a\u00e7\u00f5es sem dano, como fazer sexo com uma galinha morta antes de cozinh\u00e1-la, ou uma vegetariana experimentar a carne de um cad\u00e1ver humano n\u00e3o reclamado. Em busca de um lugar ex\u00f3tico e, a seu ver, n\u00e3o Ocidental, veio ao Brasil aplicar o question\u00e1rio em parceria com professoras do Rio Grande do Sul (que n\u00e3o lhe pareceu ex\u00f3tico), de Pernambuco (que lhe satisfez as expectativas) e replic\u00e1-lo nos Estados Unidos, mas atentando ao recorte de renda. O resultado foi que um estadunidense rico se parceria mais com um pernambucano rico do que com um estadunidense pobre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim das contas, o recorte social dessa moralidade enxuta consistiria no acr\u00f4nimo angl\u00f3fono WEIRD (esquisito): em portugu\u00eas, ocidental, instru\u00eddo, industrializado, rico e democr\u00e1tico. Segundo sua teoria, a moralidade humana seria como o paladar, no sentido de que tem receptores diversos para gostos diversos. Analogamente, fomos moldados pela evolu\u00e7\u00e3o para ter cinco funda\u00e7\u00f5es morais: o cuidado, a justi\u00e7a, a lealdade, a autoridade, a santidade e a liberdade. Esta \u00faltima teria sido a \u00faltima a desenvolver-se, quando as sociedades j\u00e1 eram complexas o suficiente para que os indiv\u00edduos pudessem conspirar contra um cacique opressor. Este seria o fundamento moral de todo revolucion\u00e1rio; seja ele um comunista oprimido por banqueiros, ou um antiestatista oprimido por altos tributos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A moral progressista \u00e9 WEIRD, e seus valores sagrados mexem s\u00f3 com duas funda\u00e7\u00f5es: o cuidado, que tem sua express\u00e3o na defesa dos direitos humanos e de minorias; e a liberdade, que se revela com a narrativa da revolu\u00e7\u00e3o socialista. A seu turno, os conservadores t\u00eam valores sagrados para ativar cada funda\u00e7\u00e3o moral. O patriotismo responde pela lealdade; a meritocracia, pela justi\u00e7a; a religi\u00e3o \u00e0 santidade; e h\u00e1 o respeito a autoridades (compare-se, por exemplo, os ideais de professor que t\u00eam conservadores e progressistas). Mas o fato de essa moral ser de um nicho de classe e escolaridade \u00e9 apenas um dos motivos de ela n\u00e3o ter apelo amplo. H\u00e1 o problema de, por operar com apenas duas funda\u00e7\u00f5es, o sujeito que dela participa n\u00e3o conseguir interpretar os valores de moralidades mais amplas. O mesmo n\u00e3o se d\u00e1 com o conservador. Para testar essa hip\u00f3tese, Haidt elaborou um teste onde um progressista teria de responder a um question\u00e1rio como se fosse um conservador, e vice-versa. A conclus\u00e3o foi que os conservadores conseguem prever os ju\u00edzos dos progressistas, mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. Ou seja, o progressista estadunidense\u00a0<em>de fato<\/em>\u00a0acha que conservadores s\u00e3o racistas machistas malvados, mas o conservador consegue entender as raz\u00f5es do progressista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Haidt conta s\u00f3 conseguiu romper a sua matriz moral ao passar um tempo como pesquisador morando na \u00cdndia. Ele conta ter chegado enxergando machismo e conden\u00e1vel explora\u00e7\u00e3o de empregados por toda parte, mas depois ter aprendido a ver as coisas como os indianos. Isso n\u00e3o implica aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica dos costumes, nem que eles permane\u00e7am est\u00e1ticos. Mas implica algum respeito pela vis\u00e3o de mundo alheia, e d\u00e1 uma compreens\u00e3o que possibilita o di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Completando o quadro pol\u00edtico dos EUA, h\u00e1 os liberais, que tamb\u00e9m t\u00eam uma moralidade WEIRD, mas ainda mais restrita do que a dos progressistas. Eles sacralizam somente um valor, que \u00e9 o da liberdade. Assim, t\u00eam um casamento de conveni\u00eancia com os conservadores por enxergarem nos progressistas uma amea\u00e7a a esse seu valor \u00fanico. Frise-se, por fim, que ser ocidental, educado, industrializado, rico e democr\u00e1tico n\u00e3o implica ser liberal, nem progressista; h\u00e1 conservadores com esse perfil, mas n\u00e3o h\u00e1, no mundo contempor\u00e2neo, liberais e progressistas fora desse perfil.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o Brasil? Creio que esse quadro sirva para analisar a queda do PSDB. O PSDB \u00e9 um partido de uspianos WEIRD. FHC dificilmente convence de que n\u00e3o \u00e9 ateu; Alckmin, assim como Marina, \u00e9 religioso, mas n\u00e3o se coloca politicamente como religioso. O PSDB n\u00e3o costuma se pintar de verde e amarelo, nem evocar a p\u00e1tria. No caso particular do Brasil, a quest\u00e3o do racialismo \u00e9 uma afronta ao patriotismo, dado que envolve dizer que somos um pa\u00eds racista dividido entre brancos e negros, enquanto que nosso cultivo do patriotismo sempre envolveu celebrar a nossa hist\u00f3ria de mesti\u00e7agem e aus\u00eancia de Apartheid. O feitio uspiano do PSDB n\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 defesa de grupos oprimidos com recorte identit\u00e1rio; pelo contr\u00e1rio. Assim, nesta campanha resolveu usar a quest\u00e3o das mulheres como cavalo de batalha. Ora, para o eleitorado conservador, a defesa das ditas minorias (ou, antes, de grupos identit\u00e1rios) \u00e9 reconhecida como bandeira de esquerda. Isso n\u00e3o quer dizer que o conservador seja favor\u00e1vel a espancar mulheres, mas somente que enxerga a divis\u00e3o pol\u00edtica entre homens e mulheres como uma coisa de esquerda, contr\u00e1ria aos seus valores patri\u00f3ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o PSDB faz isso, perde tamb\u00e9m o apoio dos liberais, que enxergam nas pol\u00edticas identit\u00e1rias uma fonte de opress\u00e3o estatal. Um liberal n\u00e3o quer pagar impostos para burocratas promoverem justi\u00e7a social; em vez disso, v\u00ea tais prop\u00f3sitos como demagogia perigosa. Assim, por causa dos valores professados, o PSDB perde eleitorado conservador para Bolsonaro e liberal para o Novo. N\u00e3o \u00e9 que o partido tenha mudado: \u00e9 que novas op\u00e7\u00f5es conseguiram encontrar uma demanda\u00a0\u00a0de grupos que queriam representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chama a aten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m no Brasil, a incapacidade dos progressistas de entender outras moralidades. Como podem fazer uma passeata xingando todo aquele que discorde de seus ideais, e pretender conquistar votos? Est\u00e1 longe de ser uma surpresa a ascens\u00e3o de Bolsonaro ap\u00f3s o #elen\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruna Frascolla<em>\u00a0\u00e9\u00a0doutora em Filosofia pela UFBA, atualmente pesquisadora colaboradora da Unicamp, tradutora dos Di\u00e1logos sobre a religi\u00e3o natural, de David Hume (Edufba, 2016)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como entender as tens\u00f5es entre moralidades rivais e seus desdobramentos para o campo da pol\u00edtica e da religi\u00e3o? O livro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1,14,11,15,9],"tags":[],"class_list":["post-626","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-biucs","category-comportamento","category-educacao","category-moralidade","category-social"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4gyB8-a6","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/626","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=626"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/626\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":645,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/626\/revisions\/645"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}