{"id":75,"date":"2013-06-10T01:19:07","date_gmt":"2013-06-10T04:19:07","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=75"},"modified":"2013-06-13T23:40:14","modified_gmt":"2013-06-14T02:40:14","slug":"liberdade-em-acao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/justica-universal\/liberdade-em-acao\/","title":{"rendered":"Liberdade em A\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/music\/general\/philosophy_action_freedom.htm\" height=\"41\" width=\"68\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>(Cap\u00edtulo Seis)\u00a0<\/em><\/p>\n<p>SAVATER, Fernando. A Liberdade em A\u00e7\u00e3o. In:\u00a0<b>As perguntas da vida.<\/b>\u00a0S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001, p.103-122.<\/p>\n<p align=\"justify\">O homem\u00a0<em>habita<\/em>\u00a0no mundo. &#8220;Habitar&#8221; n\u00e3o \u00e9 o mesmo que estar inclu\u00eddo no repert\u00f3rio de seres que h\u00e1 no mundo, n\u00e3o \u00e9 simplesmente estar &#8220;dentro&#8221; do mundo como um par de sapatos est\u00e1 dentro de sua caixa nem ter um mundo biol\u00f3gico pr\u00f3prio como o morcego ou qualquer outro animal. Para n\u00f3s, humanos, o mundo n\u00e3o \u00e9 simplesmente a trama total dos efeitos e causas, mas a palestra cheia de significado (&#8230;)<\/p>\n<p align=\"justify\">(&#8230;) o que significa &#8220;atuar&#8221;?, o que \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o humana e como ela se diferencia de outros movimentos que os outros seres fazem, assim como de outros gestos que tamb\u00e9m n\u00f3s, humanos, fazemos?, n\u00e3o ser\u00e1 uma ilus\u00e3o ou um preconceito imaginar que somos capazes de verdadeiras a\u00e7\u00f5es e n\u00e3o de simples rea\u00e7\u00f5es diante do que nos rodeia, nos influencia e nos constitui?<\/p>\n<p align=\"justify\">Suponhamos que eu tenha tomado um trem e comprado o bilhete correspondente. Durante o trajeto, estou distra\u00eddo, pensando em minhas coisas, e sem me dar conta vou brincando com o pedacinho de papel\u00e3o, que eu enrolo e desenrolo, at\u00e9 jog\u00e1-lo descuidadamente pela janela. Ent\u00e3o aparece o fiscal e me pede o bilhete: desola\u00e7\u00e3o! E, provavelmente, multa. S\u00f3 posso murmurar, para me desculpar: &#8220;Eu o joguei fora&#8230; sem me dar conta.&#8221; O fiscal, que tamb\u00e9m \u00e9 um pouco fil\u00f3sofo, comenta: &#8220;Bem, se n\u00e3o estava se dando conta do que fazia, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode dizer que o jogou fora. \u00c9 como se o tivesse deixado cair.&#8221; Mas n\u00e3o estou disposto a aceitar esse \u00e1libi. &#8220;Desculpe, mas uma coisa \u00e9 deixar o bilhete cair, outra \u00e9 jog\u00e1-lo fora, mesmo que o tenha feito inadvertidamente.&#8221; O fiscal parece achar mais divertido discutir do que me aplicar a multa: &#8220;Veja bem, &#8216;jogar&#8217; o bilhete \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o, algo diferente de deixar cair, que \u00e9 s\u00f3 uma dessas coisas que acontecem. Quando algu\u00e9m faz uma a\u00e7\u00e3o \u00e9 porque quer faz\u00ea-la, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Em contrapartida, as coisas acontecem sem a gente querer. De modo que, como o senhor n\u00e3o queria jogar fora o bilhete, podemos dizer que na verdade o deixou cair.&#8221; Eu me rebelo contra essa interpreta\u00e7\u00e3o mecanicista: &#8220;De jeito nenhum! Poder\u00edamos dizer que deixei o bilhete cair se eu tivesse adormecido, por exemplo. Ou ent\u00e3o se uma rajada de vento o tivesse arrancado da minha m\u00e3o. Mas eu estava bem acordado, n\u00e3o havia vento e o que aconteceu foi que eu joguei o bilhete sem inten\u00e7\u00e3o.&#8221; &#8220;Ah\u00e1!&#8221;, diz o fiscal, batendo com o l\u00e1pis em seu bloquinho, &#8220;se n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o, como sabe ent\u00e3o que foi o senhor, exatamente o senhor, quem jogou fora? Porque &#8216;jogar&#8217; uma coisa \u00e9 fazer algo, e ningu\u00e9m pode fazer algo se n\u00e3o se prop\u00f5e faz\u00ea-lo.&#8221; &#8220;Pois sabe de uma coisa? Joguei a droga do bilhete fora porque me deu vontade!&#8221; Multa na certa.<\/p>\n<p align=\"justify\">A verdade \u00e9 que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre o que simplesmente me acontece (esbarro a m\u00e3o num copo e o derrubo na mesa quando vou pegar o sal), o que fa\u00e7o sem me dar conta e sem querer (o tal bilhete jogado pela janela!), o que fa\u00e7o sem me dar conta mas conforme uma rotina adquirida voluntariamente (enfiar os p\u00e9s no chinelo ao me levantar da cama meio adormecido) e o que fa\u00e7o me dando conta e querendo (jogar o fiscal pela janela para que ele v\u00e1 buscar o maldito bilhete). Parece que a palavra &#8220;a\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 um termo que s\u00f3 conv\u00e9m \u00e0 \u00faltima dessas possibilidades. Claro que tamb\u00e9m h\u00e1 outros gestos dif\u00edceis de classificar, mas que sem d\u00favida parecem qualquer coisa menos &#8220;a\u00e7\u00f5es&#8221;: por exemplo, fechar os olhos e levantar os bra\u00e7os quando algu\u00e9m me atira alguma coisa no rosto ou procurar um apoio quando estou caindo. N\u00e3o, decididamente uma &#8220;a\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 s\u00f3 o que eu n\u00e3o teria feito se n\u00e3o quisesse faz\u00ea-lo: chamo de a\u00e7\u00e3o um ato\u00a0<em>volunt\u00e1rio<\/em>. O &#8220;falecido&#8221; fiscal, portanto, tinha raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">Como saber, no entanto, se um ato \u00e9 volunt\u00e1rio ou n\u00e3o? Por que, antes de realiz\u00e1-lo, talvez eu delibere entre v\u00e1rias possibilidades e finalmente me decida por uma delas. Claro que n\u00e3o \u00e9 o mesmo &#8220;decidir fazer alguma coisa&#8221; e &#8220;faz\u00ea-la&#8221;. &#8220;Decidir&#8221; \u00e9 p\u00f4r fim a uma delibera\u00e7\u00e3o mental sobre o que eu realmente quero fazer. Por\u00e9m, uma vez decidido, ainda tenho que faz\u00ea-lo. O que decido \u00e9 o objetivo ou fim de minha a\u00e7\u00e3o, mas talvez n\u00e3o a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. Por exemplo: decido pegar o copo e estico o bra\u00e7o para peg\u00e1-lo. O que eu realmente decidi fazer: pegar o copo ou esticar o bra\u00e7o? Minha delibera\u00e7\u00e3o teve a ver com o copo ou com meu bra\u00e7o? Se eu estico o bra\u00e7o e derrubo o copo, posso dizer que atuei ou n\u00e3o? Ou atuei &#8220;pela metade&#8221;?<\/p>\n<p align=\"justify\">A no\u00e7\u00e3o de &#8220;volunt\u00e1rio&#8221; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o clara como parece. Em sua\u00a0<em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>, Arist\u00f3teles imagina o caso de um capit\u00e3o de navio que deve levar uma certa carga de um porto para outro. No meio da travessia despenca uma enorme tempestade. O capit\u00e3o chega \u00e0 conclus\u00e3o de que s\u00f3 pode salvar o barco e a vida de seus tripulantes se jogar a carga pela borda para equilibrar a embarca\u00e7\u00e3o. De modo que ele a joga na \u00e1gua. Pois bem, ele a jogou porque quis? \u00c9 evidente que sim, pois poderia n\u00e3o se ter livrado dela e arriscar-se a morrer. Mas \u00e9 evidente que n\u00e3o, pois o que ele queria era lev\u00e1-la at\u00e9 seu destino final, caso contr\u00e1rio teria ficado sossegado em casa, sem zarpar! De modo que a jogou querendo&#8230; mas sem querer. N\u00e3o podemos dizer que a tenha jogado involuntariamente, nem que jog\u00e1-la fosse sua vontade. \u00c0s vezes poder-se-ia dizer que atuamos voluntariamente&#8230; contra a nossa vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(&#8230;) &#8220;fiz voluntariamente tal ou tal coisa&#8221; significa: sem minha permiss\u00e3o, tal ou tal coisa n\u00e3o teria acontecido. \u00c9 a\u00e7\u00e3o minha tudo o que n\u00e3o aconteceria se eu n\u00e3o quisesse que acontecesse. A essa possibilidade de fazer ou de n\u00e3o fazer, de dar o &#8220;sim&#8221; ou o &#8220;n\u00e3o&#8221; a certos atos que dependem de mim, \u00e9 o que podemos chamar de <em>liberdade<\/em>. E \u00e9 claro que, chegando \u00e0 liberdade, n\u00e3o resolvemos todos os nossos problemas, mas trope\u00e7amos em indaga\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seja como for, porque \u00e9 t\u00e3o <em>importante<\/em>\u00a0para n\u00f3s a quest\u00e3o da liberdade, seja para afirm\u00e1-la como arroubo entusiasmado e orgulhoso, seja para neg\u00e1-la com n\u00e3o menor energia? O c\u00e9ptico David Hume, que era fundamentalmente determinista, sustentou que a id\u00e9ia de liberdade \u00e9 compat\u00edvel com o determinismo porque n\u00e3o se refere \u00e0 casualidade f\u00edsica mas \u00e0 casualidade\u00a0<em>social<\/em>. Temos necessidade de acreditar em certa medida na liberdade para poder atribuir cada um dos acontecimentos protagonizados por humanos a um sujeito respons\u00e1vel, que possa ser elogiado ou censurado &#8211; e castigado, se for o caso &#8211; por sua a\u00e7\u00e3o. A liberdade \u00e9 imprescind\u00edvel para estabelecer responsabilidades, porque sem\u00a0<em>responsabilidade<\/em>\u00a0n\u00e3o se pode articular a conveni\u00eancia em nenhum tipo de sociedade. Mas esse ser livre n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um motivo de orgulho como tamb\u00e9m de so\u00e7obra e at\u00e9 de ang\u00fastia. Assumir nossa liberdade sup\u00f5e aceitar nossa responsabilidade pelo que fazemos, inclusive pelo que tentamos fazer ou por algumas conseq\u00fc\u00eancias indesej\u00e1veis de nossos atos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ser livre n\u00e3o \u00e9 responder vitorioso &#8220;fui eu!&#8221; na hora da distribui\u00e7\u00e3o de pr\u00eamios, mas \u00e9 tamb\u00e9m admitir &#8220;fui eu!&#8221; quando se procura o culpado por um malfeito. Para o primeiro sempre h\u00e1 volunt\u00e1rios, por\u00e9m no segundo caso o mais comum \u00e9 refugiar-se no peso esmagador das circunst\u00e2ncias: o trapaceador de vi\u00favas atribuir\u00e1 seus delitos ao abandono precoce dos pais, \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es da sociedade de consumo ou aos maus exemplos da televis\u00e3o&#8230; ao passo que quem recebe o pr\u00eamio Nobel s\u00f3 falar\u00e1 de seu esfor\u00e7o diante do destino adverso e de seus m\u00e9ritos. Ningu\u00e9m quer ser simplesmente reduzido ao cat\u00e1logo de suas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es: a quem nos repreende por uma grosseria, respondemos &#8220;n\u00e3o pude evitar, queira ver voc\u00ea no meu lugar, eu n\u00e3o sou assim, etc.&#8221;, tentando ao mesmo tempo transferir a culpa para a sociedade em que vivemos ou para o sistema capitalista, por\u00e9m mantendo aberta a possibilidade de sermos limpos, desinteressados, valentes,\u00a0<em>melhores<\/em>. Por isso a liberdade n\u00e3o \u00e9 algo como um galard\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma carga, e muitas pessoas duvidosamente maduras &#8211; ou seja, pouco aut\u00f4nomas, pouco conscientes de si mesmas &#8211; preferem renunciar a ela e pass\u00e1-la para um l\u00edder social que ao mesmo tempo tome as decis\u00f5es e carregue o peso das culpas. (&#8230;)<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas a quest\u00e3o da &#8220;responsabilidade&#8221; prov\u00e9m de muito antes. Na trag\u00e9dia grega, por exemplo, a responsabilidade se transforma \u00e0s vezes no\u00a0<em>destino<\/em>\u00a0inevit\u00e1vel do personagem, que &#8211; como acontece com \u00c9dipo nas trag\u00e9dias de S\u00f3focles\u00a0<em>\u00c9dipo rei<\/em>\u00a0e\u00a0<em>\u00c9dipo em Colona<\/em>\u00a0&#8211; tem que cumprir, mesmo sem querer nem saber, as a\u00e7\u00f5es \u00e0 que est\u00e1 predestinado, mas ao mesmo tempo sem deixar de compreender os dispositivos volunt\u00e1rios que o enredam na m\u00e1quina fatal. Nosso querer nos arrasta ao irremedi\u00e1vel, mas depois o irremedi\u00e1vel deve ser assumido como a parte cega de nosso querer: aceitar que dev\u00edamos ser culpados nos abre os olhos sobre o que somos e assim\u00a0<em>purifica<\/em>\u00a0o que podemos vir a ser. Os gregos n\u00e3o conheceram a no\u00e7\u00e3o de &#8220;liberdade&#8221; no segundo\u00b9 e no terceiro\u00b2 sentidos, portanto tamb\u00e9m n\u00e3o tiveram uma no\u00e7\u00e3o de responsabilidade realmente &#8220;personalizada&#8221;, ou seja, ligada \u00e0\u00a0<em>inten\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0subjetiva do agente e n\u00e3o \u00e0 objetividade do fato realizado. A maldi\u00e7\u00e3o do culpado recai sobre \u00c9dipo por crimes que ele ignora ter cometido (matar o pai, deitar-se com a m\u00e3e) e que depois deve assumir como parte do destino que lhe pertence&#8230; e ao qual ele pertence. Segundo S\u00f3focles, o que nos torna respons\u00e1veis n\u00e3o \u00e9 o que projetamos fazer nem o que fazemos efetivamente, e sim a reflex\u00e3o sobre o que fizemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(&#8230;) Shakespeare &#8211; quem melhor esmiu\u00e7ou os segredos contradit\u00f3rios da liberdade em a\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Macbeth, quando vacila na noite atroz antes de assassinar o rei Duncan, ponderando abalado a responsabilidade inevit\u00e1vel que cair\u00e1 sobre ele. (&#8230;) Se o assassinato solucionasse todas as conseq\u00fc\u00eancias e com sua cessa\u00e7\u00e3o o \u00eaxito estivesse assegurado! (&#8230;) Mas neste caso somos julgados aqui mesmo; (&#8230;) Macbeth quer a a\u00e7\u00e3o (o assass\u00ednio de Duncan) e quer o que ir\u00e1 conseguir por meio dessa a\u00e7\u00e3o (o trono), mas n\u00e3o quer ficar\u00a0<em>vinculado<\/em>\u00a0para sempre \u00e0 a\u00e7\u00e3o, ter que se responsabilizar por ela diante dos que lhe pe\u00e7am presta\u00e7\u00e3o de contas ou extraiam a li\u00e7\u00e3o terr\u00edvel de seu crime. Se apenas se tratasse de faz\u00ea-lo e isso fosse tudo, ele o faria sem escr\u00fapulos; mas a responsabilidade \u00e9 a contrapartida necess\u00e1ria da liberdade, seu avesso, talvez o pr\u00f3prio fundamento da exig\u00eancia de liberdade: as a\u00e7\u00f5es devem ser livres para que algu\u00e9m responda por cada uma delas. O sujeito \u00e9 livre para faz\u00ea-las, embora n\u00e3o para\u00a0<em>desprender-se<\/em>\u00a0de suas conseq\u00fc\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00f3focles ou Shakespeare costumam falar de\u00a0 uma responsabilidade &#8220;culpada&#8221; e n\u00e3o simplesmente por gosto sensacionalista: o v\u00ednculo entre liberdade e responsabilidade torna-se mais evidente quando a primeira nos apetece e a segunda nos assusta. Ou seja, quando estamos diante de uma\u00a0<em>tenta\u00e7\u00e3o<\/em>. Em nossa \u00e9poca, s\u00e3o abundantes as teorias que pretendem nos desculpar do peso respons\u00e1vel da liberdade quando nos \u00e9 fastidioso:\u00a0<b>o m\u00e9rito positivo de minhas a\u00e7\u00f5es \u00e9 meu, mas minha culpa eu posso dividir com meus pais, com a gen\u00e9tica, com a educa\u00e7\u00e3o recebida, com a situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, com o sistema econ\u00f4mico, com qualquer uma das circunst\u00e2ncias que n\u00e3o est\u00e1 em minhas m\u00e3os controlar.<\/b>\u00a0Todos n\u00f3s somos culpados de tudo, logo ningu\u00e9m \u00e9 principal culpado de nada. Em minhas aluas de \u00e9tica costumo colocar o seguinte caso pr\u00e1tico, que adorno conforme a inspira\u00e7\u00e3o do dia. Suponhamos uma mulher cujo marido empreende uma longa viagem; a mulher aproveita essa aus\u00eancia para ir ao encontro de um amante; de um dia para outro, o marido desconfiado anuncia sua volta e exige a presen\u00e7a da esposa no aeroporto para receb\u00ea-lo. Para chegar ao aeroporto, a mulher precisa atravessar um bosque onde se esconde um terr\u00edvel assassino. Assustada, ela pede ao amante que a acompanhe, mas ele se nega, pois n\u00e3o quer enfrentar o marido; ent\u00e3o pede prote\u00e7\u00e3o ao \u00fanico guarda que h\u00e1 no povoado, que tamb\u00e9m diz que n\u00e3o pode ir com ela, pois deve atender com o mesmo zelo aos outros cidad\u00e3os; recorre a diversos moradores do povoado, mas todos se recusam, alguns por medo, outros por comodismo. Finalmente ela faz a viagem sozinha e \u00e9 assassinada pelo criminoso do bosque.\u00a0<b>Pergunta: Quem \u00e9 respons\u00e1vel por sua morte?<\/b>\u00a0Costumo receber respostas para todos os gostos, conforme a personalidade do interrogado. H\u00e1 quem culpe a intransig\u00eancia do marido, a covardia do amante, a falta de profissionalismo do guarda, o mau funcionamento das institui\u00e7\u00f5es que nos prometem seguran\u00e7a, a falta de solidariedade dos moradores, at\u00e9 a m\u00e1 consci\u00eancia da pr\u00f3pria assassinada&#8230; Poucos respondem o \u00f3bvio: que o Culpado (com mai\u00fascula de principal respons\u00e1vel pelo crime) \u00e9 o pr\u00f3prio que a mata. Sem d\u00favida, na responsabilidade de cada a\u00e7\u00e3o interv\u00eam numerosas circunst\u00e2ncias que podem servir de atenuantes e \u00e0s vezes diluir ao m\u00e1ximo a culpa como tal, mas nunca ao ponto de &#8220;desligar&#8221; totalmente do ato o agente que o realiza intencionalmente. Compreender todos os aspectos de uma a\u00e7\u00e3o pode levar a perdo\u00e1-la mas nunca a apagar completamente a responsabilidade do sujeito livre: caso contr\u00e1rio, j\u00e1 n\u00e3o se trataria de uma a\u00e7\u00e3o mas de um acidente fatal. No entanto n\u00e3o ser\u00e1 justamente a pr\u00f3pria liberdade o acidente fatal da vida humana em sociedade?<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma das reflex\u00f5es mais enigmaticamente sugestivas sobre o v\u00ednculo entre a\u00e7\u00e3o e responsabilidade \u00e9 a que se encontra no &#8220;Bhagavad Gita&#8221;, ou &#8220;Can\u00e7\u00e3o do Senhor&#8221;, um longo poema dialogado composto provavelmente no s\u00e9culo III a. C., inclu\u00eddo no\u00a0<em>Mahabharata<\/em>, a grande epop\u00e9ia hindu. O her\u00f3i Arjuna avan\u00e7a em seu carro de guerra contra as tropas inimigas e disp\u00f5e as flechas com que ir\u00e1 exterminar todos os que puder. Mas entre os advers\u00e1rios que deve tentar matar ele distingue v\u00e1rios parentes e amigos (trata-se de uma guerra civil, fratricida) e isso o angustia a tal ponto que considera seriamente abandonar o combate. Ent\u00e3o o auriga que dirige seu carro de combate, e que n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o deus Krishna, identifica-se e lhe faz uma prele\u00e7\u00e3o sobre seu dever. Segundo Krishna, o escr\u00fapulo que Arjuna sente diante da tarefa de matar \u00e9 infundado, porque &#8220;nem dos mortos nem dos vivos se compadecem os s\u00e1bios&#8221;. No mundo das apar\u00eancias enganosas em que nos movemos, o verdadeiramente substantivo (Brahma, o Absoluto incriado e imorredouro) n\u00e3o pode ser destru\u00eddo por dardos nem modificado por nenhuma opera\u00e7\u00e3o humana. A cada um cabe atuar como o que \u00e9 &#8211; no caso de Arjuna, que \u00e9 um guerreiro, lutando no campo de batalha -, mas a sabedoria consiste em n\u00e3o ter nenhum apego aos frutos ou conseq\u00fc\u00eancias da a\u00e7\u00e3o: &#8220;Na a\u00e7\u00e3o est\u00e1 teu empenho, n\u00e3o em seus frutos, jamais: n\u00e3o tenhas como fim os frutos da a\u00e7\u00e3o nem tenhas apego \u00e0 ina\u00e7\u00e3o.&#8221; Todos somos obrigados a atuar pelas circunst\u00e2ncias naturais em que transcorre nossa vida: &#8220;Ningu\u00e9m, nem por um momento, jamais est\u00e1 sem agir; \u00e9 levado \u00e0 A\u00e7\u00e3o, mau grado seu, pelos fios nascidos da Natureza.&#8221; O segredo est\u00e1 em agir como se n\u00e3o se agisse, em realizar as a\u00e7\u00f5es que nos cabem sem deixar que nosso \u00e2nimo se perturbe pelo desejo, pela ira, pelo temor ou pela esperan\u00e7a. &#8220;Por isso sem apego sempre a A\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de fazer-se faz; se realiza a A\u00e7\u00e3o sem apego, o mais alto alcan\u00e7a o homem.&#8221;<span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\"><sup>4<\/sup><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Para nossas mentalidades crist\u00e3s (por mais que nos consideremos leigos ou at\u00e9 ateus), esse deus que tranq\u00fcilamente recomenda ao homem que pratique a matan\u00e7a como se n\u00e3o estivesse fazendo nada &#8211; ou como se estivesse fazendo qualquer outra coisa! &#8211; \u00e9 dif\u00edcil de entender. A pr\u00f3pria id\u00e9ia de que devemos\u00a0<em>resignar-nos<\/em>\u00a0\u00e0 a\u00e7\u00e3o como parte da ordem da natureza mas nos entregando a ela com pleno &#8220;desinteresse&#8221; pelo que promete \u00e9 contr\u00e1ria a tudo o que significa &#8220;projeto&#8221;, &#8220;inten\u00e7\u00e3o&#8221;, assim como o &#8220;\u00eaxito&#8221; ou &#8220;fracasso&#8221; do que \u00e9 empreendido. Mas o peso da responsabilidade da a\u00e7\u00e3o &#8211; que n\u00e3o \u00e9 mero projeto ocidental, uma vez que o pr\u00f3prio Arjuna o experimenta quando est\u00e1 prestes a massacrar seus parentes, tanto quanto Macbeth antes de se decidir pelo assassinato de Duncan &#8211; alivia-se com o chocante racioc\u00ednio de que \u00e9 preciso perpetrar o evit\u00e1vel como se fosse inevit\u00e1vel. No fundo, atuar &#8220;conscientemente&#8221; nada mais \u00e9 do que compreender de que modo todos n\u00f3s somos\u00a0<em>atuados<\/em>\u00a0pelo aparente e reconhecer nossa identidade com o que sempre\u00a0<em>\u00e9<\/em>\u00a0mas nunca\u00a0<em>faz<\/em>. Podemos encontrar paralelismos entre essa perspectiva oriental e a forma de pensar dos est\u00f3icos ou de Spinoza, embora premissas semelhantes desemboquem em regras pr\u00e1ticas muito diferentes: no pensamento ocidental, a considera\u00e7\u00e3o objetiva da rede causal dentro da qual atuamos permite &#8220;entender&#8221; melhor a a\u00e7\u00e3o, mas nunca &#8220;nos desinteressar&#8221; dela, isto \u00e9, de seus objetivos e conseq\u00fc\u00eancias. Assim \u00e9 poss\u00edvel compreender melhor as respeitosas repreens\u00f5es que um grande admirador da sabedoria hindu, Octavio Paz, formula (em seu livro\u00a0<em>Vislumbres de la India<\/em>) contra essa doutrina do Bhagavad Gita: &#8220;O desprendimento de Arjuna \u00e9 um ato \u00edntimo, uma ren\u00fancia a si mesmo e a seus apetites, um ato de hero\u00edsmo espiritual e que, no entanto, n\u00e3o revela amor ao pr\u00f3ximo. Arjuna n\u00e3o salva ningu\u00e9m exceto a si mesmo&#8230; o m\u00ednimo que se pode dizer \u00e9 que Krishna prega um desinteresse em filantropia.&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\">Ser livre \u00e9 responder por nossos atos e sempre se responde diante dos outros, com os outros como v\u00edtimas, como testemunhas, e como ju\u00edzes. No entanto, todos parecemos buscar &#8220;algo&#8221; que nos alivie a pesada carga da liberdade. N\u00e3o podemos supor que nossa natureza humana seja livre mas que dentro dessa liberdade &#8220;necess\u00e1ria&#8221; atuamos t\u00e3o inocentemente como crescem as plantas ou se desenvolvem os animais? Se somos livres &#8220;por natureza&#8221;, ser\u00e1 que a pr\u00f3pria natureza n\u00e3o marca o \u00e2mbito de efic\u00e1cia de nossa liberdade? Em que se distingue o irremediavelmente livre de nossa condi\u00e7\u00e3o natural do simplesmente irremedi\u00e1vel de outros seres naturais? Talvez um ind\u00edcio de resposta nos seja oferecido por este belo poema da polonesa Wistlawa Szymborska:<\/p>\n<p align=\"justify\"><em><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">A \u00e1guia ratoeira n\u00e3o costuma censurar-se nada.<br \/>\nCarece de escr\u00fapulos a pantera negra.<br \/>\nAs piranhas n\u00e3o duvidam da honradez de seus atos.<br \/>\nE a cascavel \u00e0 constante auto-aprova\u00e7\u00e3o se entrega.<br \/>\nA lagosta, o caim\u00e3, a triquina e a mutuca<br \/>\nvivem satisfeitos por ser como s\u00e3o.<br \/>\n{&#8230;} No terceiro planeta do Sol,<br \/>\na consci\u00eancia limpa e tranq\u00fcila<br \/>\n\u00e9 um sintoma primordial de animalidade.<\/span>\u00b3<\/em><\/p>\n<p>O homem parece ser o \u00fanico animal que pode ficar descontente consigo mesmo: o\u00a0<em>arrependimento<\/em>\u00a0\u00e9 uma das possibilidades sempre abertas \u00e0 autoconsci\u00eancia do agente livre. Mas, se somos naturalmente livres, como podemos nos arrepender daquilo que fazemos com nossa liberdade natural? Como pode o desenvolvimento do que naturalmente somos trazer-nos conflitos \u00edntimos? Devemos ent\u00e3o, agora, elucidar qual \u00e9 nossa natureza e que sentido tem a no\u00e7\u00e3o de &#8220;natureza&#8221; para n\u00f3s, os animais capazes de consci\u00eancia pesada.<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\">O termo &#8220;liberdade&#8221; tem geralmente tr\u00eas usos diferentes, que freq\u00fcentemente se confundem nos debates sobre o tema e que conviria tentar distinguir pelo menos na medida do poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\">a) A liberdade como disponibilidade para atuar de acordo com os pr\u00f3prios desejos ou projetos. \u00c9 o sentido mais comum da palavra, ao qual nos referimos a maioria das vezes em que aparece o tema em nossa conversa\u00e7\u00e3o. Faz alus\u00e3o a quando carecemos de impedimentos f\u00edsicos, psicol\u00f3gicos ou legais para agir como queremos. (&#8230;)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; font-size: medium;\"><b>(\u00b9)<\/b>\u00a0<\/span><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\">b) A liberdade de querer o que quero e n\u00e3o s\u00f3 de fazer ou tentar fazer o que quero. Trata-se de um n\u00edvel mais sutil e menos \u00f3bvio do conceito de &#8220;liberdade&#8221;. Mesmo que eu esteja amarrado e encarcerado, ningu\u00e9m poder\u00e1 me impedir de querer realizar uma determinada viagem: s\u00f3 podem impedir-me de realiz\u00e1-la efetivamente. Se eu n\u00e3o quero, ningu\u00e9m pode me obrigar a odiar meu torturador nem a crer nos dogmas que ele tenta me impor pela for\u00e7a. (&#8230;)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; font-size: medium;\"><b>(\u00b2)<\/b>\u00a0<\/span><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\">c) A liberdade de querer o que n\u00e3o queremos e de n\u00e3o querer o que de fato queremos. Sem d\u00favida, a mais estranha e dif\u00edcil tanto de explicar como de compreender. Para abord\u00e1-la, observemos que n\u00f3s, humanos, sentimos n\u00e3o apenas desejos como tamb\u00e9m desejos sobre os desejos que temos; n\u00e3o s\u00f3 temos inten\u00e7\u00f5es como tamb\u00e9m gostar\u00edamos de certas inten\u00e7\u00f5es&#8230; mesmo que de fato n\u00e3o as tenhamos! Suponhamos que eu passe por uma casa em chamas e ou\u00e7a uma crian\u00e7a chorar l\u00e1 dentro: n\u00e3o quero entrar para tentar salv\u00e1-la (me d\u00e1 medo, \u00e9 muito perigoso, para isso existem os bombeiros&#8230;) mas ao mesmo tempo eu\u00a0<em>gostaria<\/em>\u00a0de querer entrar para salv\u00e1-la, porque me agradaria n\u00e3o ter tanto medo do perigo e viver em um mundo em que os adultos ajudassem as crian\u00e7as em caso de inc\u00eandio. Sou o que quero ser mas ao mesmo tempo gostaria de ser de outra maneira, de querer outras coisas, de querer\u00a0<em>melhor<\/em>. Qualquer um pode fugir do perigo, mas ningu\u00e9m quer ser covarde; \u00e0s vezes tenho vontade ou interesse em mentir, mas n\u00e3o gostaria de me considerar um mentiroso; gosto de beber mas n\u00e3o quero me transformar num alco\u00f3lico. O que &#8220;quero fazer agora&#8221; n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico ao que &#8220;quero ser&#8221;. (&#8230;)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; font-size: medium;\"><b>(\u00b3)<\/b>\u00a0<\/span><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\">Extra\u00eddo de\u00a0<em>Paisaje con grano de arena<\/em>, de W. Szymborska, trad. esp. de A. M. Moix e J. Slawomirski, Lumen, Barcelona. [Tradu\u00e7\u00e3o livre a partir do texto citado pelo autor.]<\/span><\/p>\n<p><b><span style=\"font-family: Arial; font-size: medium;\">(<\/span><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\"><sup>4<\/sup><\/span><span style=\"font-family: Arial; font-size: medium;\">)\u00a0<\/span><\/b><span style=\"font-family: Arial; font-size: xx-small;\"><em>Canci\u00f3n del Se\u00f1hor<\/em>, em Atma y Brahma, trad. esp. de F. Rodr\u00edguez Adrados, Editora Nacional, Madri. [Traduzido a partir do texto citado pelo autor.]<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Cap\u00edtulo Seis)\u00a0 SAVATER, Fernando. A Liberdade em A\u00e7\u00e3o. In:\u00a0As perguntas da vida.\u00a0S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001, p.103-122. O homem\u00a0habita\u00a0no mundo. 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