{"id":71,"date":"2013-06-10T01:03:38","date_gmt":"2013-06-10T04:03:38","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=71"},"modified":"2013-06-13T23:39:37","modified_gmt":"2013-06-14T02:39:37","slug":"viver-juntos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/justica-universal\/viver-juntos\/","title":{"rendered":"Viver Juntos"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/music\/general\/philosophy_living_together.htm\" height=\"41\" width=\"68\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p align=\"justify\"><i>(Cap\u00edtulo Oito)<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SAVATER, Fernando. Viver Juntos. In:\u00a0<b>As perguntas da vida.<\/b>\u00a0S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001, p.147-168.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ningu\u00e9m chega a se tornar humano se est\u00e1 sozinho. N\u00f3s nos fazemos humanos uns aos outros. Fomos \u201ccontagiados\u201d por nossa humanidade: \u00e9 uma doen\u00e7a mortal que nunca ter\u00edamos desenvolvido se n\u00e3o fosse pela proximidade de nossos semelhantes! Foi-nos passada boca a boca, pela palavra, mas antes ainda pelo olhar: quando ainda estamos muito longe de saber ler, j\u00e1 lemos nossa humanidade nos olhos de nossos pais ou de quem cuida de n\u00f3s em seu lugar. \u00c9 um olhar que cont\u00e9m amor, preocupa\u00e7\u00e3o, censura ou zombaria: ou seja, significados. E que nos tira de nossa insignific\u00e2ncia natural para nos tornar humanamente significativos. (&#8230;)<\/p>\n<p align=\"justify\">Sendo como somos, como humanos, fruto desse cont\u00e1gio social, \u00e0 primeira vista \u00e9 surpreendente que suportemos nossa sociabilidade com tanto desassossego. N\u00e3o ser\u00edamos o que somos sem os outros, mas custa-nos ser com os outros. A conviv\u00eancia social nunca \u00e9 indolor. Talvez justamente porque \u00e9 importante de mais para n\u00f3s, porque esperamos ou temos medo demais dela, por que nos incomoda precisar tanto dela. Durante um per\u00edodo de tempo muito breve, cada ser humano acredita ser Deus ou pelo menos rei de seu min\u00fasculo universo conhecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">A filosofia e a literatura contempor\u00e2neas est\u00e3o repletas de lamentos sobre a carga que nos imp\u00f5e viver em sociedade, as frustra\u00e7\u00f5es que acarreta nossa condi\u00e7\u00e3o social e os preservativos que podemos usar para padec\u00ea-las o menos poss\u00edvel. Em seu drama Huis clos [Entre quatro paredes]. Jean-Paul Sartre cunhou uma senten\u00e7a c\u00e9lebre, depois mil vezes repetia: \u201cO inferno s\u00e3o os outros.\u201d Isso significa que o para\u00edso seria a solid\u00e3o ou o isolamento (que por certo est\u00e3o muito longe de ser a mesma coisa). O tema da \u201cincomunica\u00e7\u00e3o\u201d aparece tamb\u00e9m das mais diversas maneiras em obras de pensamento, romances, poemas, etc. \u00c0s vezes \u00e9 uma queixa pela perda de uma comunidade de sentido que supostamente existia nas sociedades tradicionais e que o individualismo moderno destruiu; mas em outros casos parece provir antes desse pr\u00f3prio individualismo, que se considera incompreendido pelos outros no que tem de \u00fanico e irredutivelmente \u201cespecial\u201d. Outros autores deploram ou se rebelam contra as limita\u00e7\u00f5es que a conviv\u00eancia em sociedade imp\u00f5e \u00e0 nossa liberdade pessoal: nunca somos o que realmente queremos ser, mas o que os outros exigem que sejamos! Alguns formulam estrat\u00e9gias vitais para que o coletivo n\u00e3o devore totalmente nossa intimidade: colaboremos com a sociedade enquanto nos for vantajoso e saibamos nos dissociar dela quando nos parecer oportuno. Afinal de contas, como disse em certa ocasi\u00e3o a empreendedora Mrs Thatcher, a sociedade \u00e9 uma entel\u00e9quia e os \u00fanicos que existem realmente s\u00e3o os indiv\u00edduos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(&#8230;) Sem querer contrariar Mrs Thatcher, parece evidente que as sociedades n\u00e3o s\u00e3o simplesmente um acordo mais ou menos provis\u00f3rio, mais ou menos conveniente, ao qual chegam indiv\u00edduos racionais e aut\u00f4nomos, mas que, pelo contr\u00e1rio, os indiv\u00edduos racionais e aut\u00f4nomos s\u00e3o produtos excelentes da evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das sociedades, para cuja transforma\u00e7\u00e3o eles, por sua vez, depois contribuem. Como poderia ser de outro modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">Os outros s\u00e3o o inferno? S\u00f3 na medida em que podem tornar-nos a vida infernal ao nos revelar \u2013 \u00e0s vezes com pouca considera\u00e7\u00e3o \u2013 as fissuras do sonho libert\u00e1rio de onipot\u00eancia que nossa imaturidade autocomplacente gosta de imaginar. Vivemos necessariamente incomunicados? Sem d\u00favida, se por \u201ccomunica\u00e7\u00e3o\u201d entendemos que os outros nos interpretem espontaneamente de modo t\u00e3o exaustivo quanto n\u00f3s mesmos acreditamos nos expressar; mas s\u00f3 muito relativamente, se assumimos que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa pedir compreens\u00e3o e fazer-se compreender e que a boa comunica\u00e7\u00e3o tem por primeiro requisito fazer um esfor\u00e7o para compreender esse outro de quem pedimos compreens\u00e3o. Os outros e as institui\u00e7\u00f5es que compartilhamos com eles limitam nossa liberdade? Talvez a pergunta devesse ser formulada de maneira diferente: tem sentido falar em liberdade sem refer\u00eancia \u00e0 responsabilidade, ou seja, \u00e0 nossa rela\u00e7\u00e3o com os outros?, n\u00e3o s\u00e3o justamente as institui\u00e7\u00f5es \u2013 a come\u00e7ar pelas leis \u2013 que nos revelam que somos livres para obedecer-lhes ou desafi\u00e1-las, assim como para estabelec\u00ea-las ou revog\u00e1-las? Mesmo os abusos totalit\u00e1rios ou simplesmente autorit\u00e1rios servem para compreendermos melhor &#8211; na resist\u00eancia contra eles &#8211; as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais de nossa autonomia pessoal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por mais justificados que sejam os protestos contra as formas efetivas da sociedade atual (de qualquer sociedade \u201catual\u201d), continua sendo igualmente certo que somos humanamente configurados para e por nossos semelhantes. \u00c9 nosso destino de seres ling\u00fc\u00edsticos, ou seja, simb\u00f3licos. Ao nascer, somos \u201ccapazes\u201d de humanidade, mas n\u00e3o atualizamos essa capacidade &#8211; que inclui entre suas caracter\u00edsticas a autonomia e a liberdade &#8211; at\u00e9 gozar e sofrer a rela\u00e7\u00e3o com os demais. (&#8230;) Ningu\u00e9m chegaria \u00e0 humanidade se n\u00e3o fosse contagiado pelos outros, pois tornar-se humano nunca \u00e9 coisa de um s\u00f3, mas tarefa de v\u00e1rios; mas, uma vez humanos, a pior tortura seria que ningu\u00e9m nos reconhecesse como tais&#8230; nem sequer para nos aborrecer com suas censuras! (&#8230;)<\/p>\n<p align=\"justify\">Por que existe a disc\u00f3rdia? Sem d\u00favida, n\u00e3o \u00e9 porque n\u00f3s, seres humanos, sejamos irracionais ou violentos por natureza, como \u00e0s vezes dizem os pregadores de trivialidades. Muito pelo contr\u00e1rio. Grande parte de nossos antagonismos prov\u00eam do fato de sermos seres decididamente &#8220;racionais&#8221;, ou seja, muito capazes de calcular nosso benef\u00edcio e decididos a n\u00e3o aceitar nenhum pacto do qual n\u00e3o saiamos claramente ganhadores. Somos suficientemente &#8220;racionais&#8221; pelo menos para nos aproveitar dos outros e desconfiar do pr\u00f3ximo (supondo, com bons argumentos, que ele se portar\u00e1 conosco, se poss\u00edvel, como n\u00f3s tentamos nos portar com ele). Tamb\u00e9m usamos a raz\u00e3o suficientemente para nos dar conta de que nada nos traria tanto benef\u00edcio como viver numa comunidade de pessoas leais e solid\u00e1rias diante da desgra\u00e7a alheia, por\u00e9m nos perguntamos: &#8220;E se os outros ainda n\u00e3o se deram conta disso?&#8221;, para concluir: &#8220;Eles que comecem, e eu me comprometo a lhes pagar na mesma moeda.&#8221; Tudo muito racional, como se v\u00ea. A esta altura, espero n\u00e3o ter que lembrar ao leitor a diferen\u00e7a j\u00e1 reiterada entre o &#8220;racional&#8221; e o &#8220;razo\u00e1vel&#8221;. Se preciso, observem a realidade que os cerca (na qual algumas poucas centenas de privilegiados possuem a imensa maioria das riquezas, ao passo que milh\u00f5es de criaturas morrem de fome) e poder\u00e3o concluir que vivemos em um mundo tremendamente racional mas pouqu\u00edssimo razo\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade que sejamos espontaneamente &#8220;violentos&#8221; ou &#8220;anti-sociais&#8221;. Claro que em todas as sociedades existem pessoas assim, que padecem de alguma altera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica ou que foram t\u00e3o maltratadas pelos outros que depois lhes pagam na mesma moeda. N\u00e3o podemos, legitimamente, esperar que aqueles a quem o resto da comunidade trata como se fossem animais, utilizando-os como burros de carga e n\u00e3o se interessando por sua sorte, depois se comportem como verdadeiros cidad\u00e3os. Mas n\u00e3o h\u00e1 tantos casos como seria de se esperar (\u00e9 surpreendente, de fato, o quanto se empenham em continuar sendo soci\u00e1veis at\u00e9 aqueles que menos proveito tiram da sociedade) nem rompem a conviv\u00eancia humana tanto quanto outras causas que dir\u00edamos opostas. Com efeito, os grandes enfrentamentos coletivos geralmente n\u00e3o s\u00e3o protagonizados por indiv\u00edduos pessoalmente violentos, mas sim por grupos formados por indiv\u00edduos disciplinados e obedientes, que foram convencidos de que seu interesse comum depende de que lutem contra certos advers\u00e1rios &#8220;estranhos&#8221; e os destruam. N\u00e3o s\u00e3o violentos por raz\u00f5es &#8220;anti-sociais&#8221;, mas por excesso de sociabilidade: t\u00eam tanto anseio de &#8220;normalidade&#8221;, de se parecer o mais poss\u00edvel com o resto do grupo, de se parecer o mais poss\u00edvel com o resto do grupo, de conservar sua &#8220;identidade&#8221; com ele a todo custo, que est\u00e3o dispostos a exterminar os diferentes, os forasteiros, os que t\u00eam cren\u00e7as ou h\u00e1bitos estranhos, os que se considera que ameacem os interesses leg\u00edtimos ou abusivos do pr\u00f3prio rebanho. N\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o abundantes os lobos ferozes e os que h\u00e1 n\u00e3o representam o maior risco para a conc\u00f3rdia humana; o verdadeiro perigo prov\u00e9m, em geral, das ovelhas\u00a0<i>raivosas<\/i>&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">Desde muito antigamente vem-se tentando organizar a sociedade humana de modo que ela garanta o m\u00e1ximo de conc\u00f3rdia. Por certo para consegu\u00ed-lo n\u00e3o podemos confiar simplesmente no instinto social de nossa esp\u00e9cie. \u00c9 verdade que ele nos faz ter necessidade da companhia de nossos semelhantes, mas tamb\u00e9m nos p\u00f5es em confronto com eles. As mesmas raz\u00f5es que nos aproximam dos outros podem fazer com que eles se tornem nossos inimigos. Como isso pode acontecer? Somos seres soci\u00e1veis porque nos parecemos muito uns com os outros (muito mais, sem d\u00favida, do que a diversidade de nossas culturas e formas de vida levam a supor) e em geral queremos todos aproximadamente as mesmas coisas essenciais: reconhecimento, companhia, prote\u00e7\u00e3o, abund\u00e2ncia, divers\u00e3o, seguran\u00e7a&#8230; Por\u00e9m somos t\u00e3o parecidos que freq\u00fcentemente desejamos ao mesmo tempo as mesmas coisas (materiais ou simb\u00f3licas) e as disputamos uns com os outros. \u00c9 at\u00e9 muito freq\u00fcente desejarmos certos bens s\u00f3 porque vemos que outros tamb\u00e9m os desejam: a tal ponto somos greg\u00e1rios e conformistas!<\/p>\n<p align=\"justify\">(&#8230;)<\/p>\n<p align=\"justify\">As manifesta\u00e7\u00f5es humanas mais caracter\u00edsticas s\u00f3 podem ser compreendidas em um contexto social: s\u00e3o coisas que fazemos pensando nos outros e\u00a0<i>chamando-os<\/i>\u00a0por meio delas quando n\u00e3o est\u00e3o presentes. Por exemplo, rir. O humor \u00e9 um aceno em busca de aut\u00eanticos &#8220;companheiros vitais&#8221; que possam compartilhar conosco o surgimento prazeroso e \u00e0s vezes demolidor do sem-sentido na ordem rotineira dos significados estabelecidos. Nada \u00e9 t\u00e3o soci\u00e1vel nem une tanto como o senso de humor: por isso, quando numa reuni\u00e3o de amigos se ouvem muitas risadas ou se trocam sorrisos em profus\u00e3o, dizemos que est\u00e3o &#8220;se divertindo&#8221;. Ou seja, est\u00e3o se dando bem reconhecendo-se uns aos outros. At\u00e9 quem ri sozinho na verdade est\u00e1 rindo \u00e0 espera das almas g\u00eameas que podem unir-se a ele para rir. Em muitas amizades &#8211; e n\u00e3o poucos amores! &#8211; come\u00e7am quando duas pessoas entendem um chiste que escapa aos outros&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">A cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e seus prazeres tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser entendidos adequadamente se n\u00e3o s\u00e3o\u00a0<i>compartilhados<\/i>. Quando descobrimos algo bonito, a primeira coisa que fazemos \u00e9 procurar algu\u00e9m que possa desfrut\u00e1-la conosco: junto com ele ou com ela tamb\u00e9m n\u00f3s desfrutaremos mais. As crian\u00e7as pequenas passam a vida puxando os adultos pela manga para lhes mostrar pequenas maravilhas que \u00e0s vezes os grandes s\u00e3o est\u00fapidos demais para apreciar o quanto valem. Mas o que \u00e9 a beleza? Por que \u00e9 t\u00e3o importante para n\u00f3s descobri-la, cri\u00e1-la e compartilh\u00e1-la? (&#8230;)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Cap\u00edtulo Oito) SAVATER, Fernando. Viver Juntos. In:\u00a0As perguntas da vida.\u00a0S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001, p.147-168. 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