{"id":58,"date":"2013-06-10T00:55:30","date_gmt":"2013-06-10T03:55:30","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=58"},"modified":"2013-06-13T23:35:36","modified_gmt":"2013-06-14T02:35:36","slug":"fabula-da-cidade","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/justica-universal\/fabula-da-cidade\/","title":{"rendered":"F\u00e1bula da Cidade"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/music\/general\/general_city_legend.htm\" height=\"41\" width=\"68\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b><span style=\"font-size: xx-large;\">A F\u00e1bula da Cidade<\/span><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Uma casa \u00e9 muito pouco para um homem; sua verdadeira casa \u00e9 a cidade. E os homens n\u00e3o amam as cidades que os humilham e sufocam, mas aquelas que parecem amoldadas \u00e0s suas necessidades e desejos, humanizadas e oferecidas &#8211; uma cidade deve ter a medida do homem.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00c9 poss\u00edvel que, pouco a pouco, os lugares cordiais da cidade estejam desaparecendo, desfigurados pelo progresso e pela t\u00e9cnica, tornados monstruosos pela conspira\u00e7\u00e3o dos elementos que obrigam as criaturas a viver como se estivessem lutando, jungidas a um certo n\u00famero de rituais que as impedem de parar no meio de uma cal\u00e7ada para ver uma crian\u00e7a ou as levam a atravessar uma rua como se estivessem fugindo da morte.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em cidades assim, a criatura humana pouco ou nada vale, porque n\u00e3o existe entre ela e a paisagem a harmonia necess\u00e1ria, que torna a vida uma coisa digna. E o habitante, escravizado pelo monstro, vai-se repetindo diariamente, correndo para as filas dos alimentos, dos transportes, do trabalho e das divers\u00f5es, proibido de fazer algo que lhe d\u00ea a certeza da pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">N\u00e3o ser\u00e1 excessivo dizer que o Rio est\u00e1 correndo o perigo de incluir-se no n\u00famero das cidades desumanizadas, devoradas pela no\u00e7\u00e3o da pressa e do combate, sem rostos que iluminem em sorrisos e lugares que convidem \u00e0 perman\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mal os seus habitantes podem tomar cafezinho e conversar sentados; j\u00e1 n\u00e3o se pode passear nem sorrir nem sonhar, e as pessoas andam como se isso fosse um castigo, uma escravid\u00e3o que as leva a imaginar o ref\u00fagio das casas onde as tardes de s\u00e1bado e os domingos as insulam, num temor de visitas que escamoteiam o descanso e a intimidade familiar. E h\u00e1 mesmo gente que transfere os sonhos para a velhice, quando a aposentadoria, triunfante da morte, facultar dias inteiros numa casa de sub\u00farbio, criando can\u00e1rios, decifrando palavras cruzadas, sonhando para jogar no bicho, num mister que justifique a exist\u00eancia. E outras pessoas h\u00e1 que esperam que o dia em que poder\u00e3o fugir da cidade de arranha-c\u00e9us inamistosos, de atmosferas sufocantes, de censuras e exig\u00eancias, humilha\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as, para regressar aos lugares de onde vieram, iludidas por esse mito mundial das grandes cidades. E ainda existem as que, durante anos e anos, compram terrenos a presta\u00e7\u00f5es ou juntam dinheiro, \u00e0 espera do dia em que se plantar\u00e3o para sempre num lugar imagin\u00e1rio, sem base f\u00edsica, naquele s\u00edtio onde cada criatura \u00e9 um Robinson atento \u00e0s brisas e del\u00edcias de sua ilha, ou o s\u00edndico ciumento de um para\u00edso perdido.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para que se ame uma cidade, \u00e9 preciso que ela se amolde \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a dos seus mun\u00edcipes, possua a dimens\u00e3o das criaturas humanas. Isso n\u00e3o quer dizer que as cidades devam ser pequenas; significa apenas que, nas mudan\u00e7as e transfigura\u00e7\u00f5es, elas crescer\u00e3o pensando naqueles que as habitam e completam, e as tornam vivas. Pois o homem \u00e9 para a cidade como o sangue para o corpo &#8211; fora disso, dessa harmoniosa circula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 apenas cad\u00e1veres e ru\u00ednas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O habitante deve sentir-se livre e solid\u00e1rio, e n\u00e3o um guerreiro sozinho, um terrorista em sil\u00eancio. Deve encontrar na paisagem os motivos que o entranham \u00e0 vida e ao tempo. E ele n\u00e3o quer a paisagem dos turistas, onde se consegue a beleza infensa dos postais monumentalizados; reclama somente os lugares que lhe estimulem a fome de viver, sonegando-o aos cansa\u00e7os e desencantos. Em termos de sub\u00farbio, ele aspira ao bar debaixo de \u00e1rvores, com cervejinha gelada e tira-gosto, \u00e0 pra\u00e7a com\u00a0<i>play-ground<\/i>\u00a0para crian\u00e7as, \u00e0 retreta coroada de valsas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Suprimidas as rela\u00e7\u00f5es entre o habitante e seu panorama, tornada incomunic\u00e1vel a paisagem, indiferente a cidade \u00e0 fome de simpatia que faz algu\u00e9m preferir uma rua a outra, um bonde a um \u00f4nibus, nada h\u00e1 mais que fazer sen\u00e3o alimentar-se a criatura de nostalgia e guardar no fundo do cora\u00e7\u00e3o a imagem da cidade comunicante, o reino da comunh\u00e3o humana onde se poderia dizer &#8220;bom dia&#8221; com a convic\u00e7\u00e3o de quem sabe o que isso significa.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">E esse risco est\u00e1 correndo o Rio, cidade viva e cordial. Um carioca dos velhos tempos ia andando pela avenida, esbarrou num cidad\u00e3o que vinha em sentido contr\u00e1rio e pediu desculpas. O outro, que estava transbordante de pressa, indignou-se:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n\u00e3o tem o que fazer? Esbarra na gente e ainda se vira para pedir desculpas?<\/p>\n<p>Era a f\u00e1bula da cidade correndo para a desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"RIGHT\">(IVO, L\u00eado.\u00a0<i>O navio adormecido no bosque<\/i>. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Duas Cidades\/INL, 1977).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A F\u00e1bula da Cidade Uma casa \u00e9 muito pouco para um homem; sua verdadeira casa \u00e9 a cidade. 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