{"id":514,"date":"2014-01-13T11:15:14","date_gmt":"2014-01-13T13:15:14","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=514"},"modified":"2014-01-13T11:22:41","modified_gmt":"2014-01-13T13:22:41","slug":"argumentacao-reversa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/reforma-educacional\/argumentacao-reversa\/","title":{"rendered":"Argumenta\u00e7\u00e3o Reversa"},"content":{"rendered":"<p><small>por\u00a0<a title=\"Ver todos os artigos de George Marmelstein Lima\" href=\"http:\/\/direitosfundamentais.net\/author\/georgemlima\/\" rel=\"author\">George Marmelstein Lima<br \/>\n<\/a><\/small>(<a title=\"http:\/\/direitosfundamentais.net\/2013\/11\/18\/a-engenharia-reversa-da-argumentacao\" href=\"http:\/\/direitosfundamentais.net\/2013\/11\/18\/a-engenharia-reversa-da-argumentacao\" target=\"_blank\">http:\/\/direitosfundamentais.net\/2013\/11\/18\/a-engenharia-reversa-da-argumentacao<\/a>)<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>A Engenharia Reversa da Argumenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloque-se na posi\u00e7\u00e3o de um recrutador respons\u00e1vel pela sele\u00e7\u00e3o de uma pessoa para ocupar o posto de Chefe do Departamento de Pol\u00edcia. Voc\u00ea tem dois candidatos em potencial: Jo\u00e3o, que \u00e9 um policial com bastante experi\u00eancia de rua, mas baixa forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, e Maria, que \u00e9 uma policial com pouca experi\u00eancia de rua, mas alta forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Quem voc\u00ea escolheria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pergunta, formulada de forma um pouco mais complexa, foi parte de uma importante\u00a0<a href=\"http:\/\/socialjudgments.com\/docs\/Uhlmann%20and%20Cohen%202005.pdf\">pesquisa em psicologia social realizada por Uhlmann e Cohen, da Universidade de Yale<\/a>. Os pesquisadores criaram dois cen\u00e1rios diferentes. No primeiro cen\u00e1rio, o candidato masculino tinha boa experi\u00eancia em rua, mas baixa forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, enquanto a candidata feminina tinha as qualidades opostas. No segundo cen\u00e1rio, o quadro se inverteu: o candidato masculino foi apresentado com pouca experi\u00eancia em rua, mas alta forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambos os cen\u00e1rios, observou-se uma tend\u00eancia majorit\u00e1ria de se escolher o candidato masculino para o posto de Chefe do Departamento de Pol\u00edcia. Essa tend\u00eancia ocorria mesmo quando os recrutadores (que eram cobaias da experi\u00eancia) eram do sexo feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais curioso e relevante \u00e9 que tamb\u00e9m foi perguntado aos recrutadores quais os motivos preponderantes da escolha. Por que eles preferiam Jo\u00e3o? A resposta variava conforme o cen\u00e1rio: no primeiro caso, Jo\u00e3o foi escolhido porque a experi\u00eancia nas ruas seria uma qualidade mais importante para um Chefe de Pol\u00edcia; no segundo caso, Jo\u00e3o foi escolhido porque a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica era a mais relevante para um Chefe de Pol\u00edcia. Ou seja, o argumento era constru\u00eddo conforme a resposta, funcionando como um pretexto para justificar a escolha depois que ela j\u00e1 tinha sido feita e n\u00e3o como um guia a orientar previamente a escolha. No fundo, o que motivou o ju\u00edzo foi uma pr\u00e9-compreens\u00e3o baseada numa perspectiva estereotipada de que o Chefe de Pol\u00edcia tinha que ser homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ressalte-se que os pesquisadores tamb\u00e9m tiveram o cuidado de criar um modelo de pesquisa onde o cargo a ser ocupado era mais relacionado com a figura feminina: o de Professor(a) de Estudos Femininos. Nessa outra situa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se observou que as escolhas eram motivadas pelo estere\u00f3tipo, e as raz\u00f5es posteriormente exigidas para justificar a escolha eram constru\u00eddas conforme a situa\u00e7\u00e3o, ou seja, as qualidades apontadas como mais importantes para aquele cargo variavam conforme o fato de o candidato ser homem ou mulher. Nesse caso, as qualidades que, ocasionalmente, eram atribu\u00eddas \u00e0 candidata feminina prevaleciam para que, em geral, a mulher fosse escolhida ao cargo.<\/p>\n<p>Muitas s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es que podemos extrair dessa pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira, sem d\u00favida, \u00e9 a de que nossas escolhas s\u00e3o, muitas vezes, motivadas por pr\u00e9-compreens\u00f5es, que nem sempre temos coragem de assumir ou mesmo consci\u00eancia de que existem. Nossos ju\u00edzos pr\u00e9-concebidos s\u00e3o muito mais fortes e influentes do que imaginamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda \u00e9 a de que devemos sempre desconfiar das raz\u00f5es apresentadas para justificar as nossas escolhas (e as escolhas dos outros), pois, por mais que sejam expressas em linguagem racional e pretensamente objetiva, elas podem estar apenas tentando esconder os seus verdadeiros motivos. E isso n\u00e3o vale apenas para o recrutamento a uma vaga de emprego, mas tamb\u00e9m para as decis\u00f5es mais variadas e importantes que, cotidianamente, temos que tomar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira \u00e9 a de que n\u00e3o devemos menosprezar o contexto da descoberta para uma completa compreens\u00e3o do ato de decidir. Ainda que o contexto da justifica\u00e7\u00e3o tenha um papel importante no controle da racionalidade da decis\u00e3o e por mais que uma argumenta\u00e7\u00e3o bem desenvolvida tenha um enorme poder de convencimento, nem sempre somos capazes de expressar claramente todos os aut\u00eanticos fundamentos das nossas escolhas, e o que \u00e9 dito pode n\u00e3o corresponder ao que foi, de fato, relevante para a forma\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, o experimento tamb\u00e9m pode servir para demonstrar a import\u00e2ncia da coer\u00eancia e da consist\u00eancia como limite ao arb\u00edtrio. Ainda que as raz\u00f5es apresentadas n\u00e3o sejam vinculantes para todas as escolhas futuras, j\u00e1 que cada caso tem a sua particularidade, elas deveriam funcionar como constrangimentos \u00e9ticos capazes de dificultar a dissimila\u00e7\u00e3o argumentativa. Quando retiramos a situa\u00e7\u00e3o de seu contexto de singularidade e a colocamos numa perspectiva de longo prazo, pass\u00edvel de repeti\u00e7\u00e3o futura, tendemos a ser muito mais cautelosos na apresenta\u00e7\u00e3o dos argumentos, estando mais prop\u00edcios a construir raz\u00f5es \u201cuniversaliz\u00e1veis\u201d. Se isso n\u00e3o \u00e9 uma garantia completa contra a hipocrisia, pelo menos fica mais f\u00e1cil desmascar\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, por falar em m\u00e1scara, h\u00e1 uma anedota contada por Schopenhauer para criticar Kant que vem bem ao encontro deste post. Schopenhauer pretendia criticar Kant pelo fato de que o seu m\u00e9todo de reflex\u00e3o sempre levava \u00e0 resposta que, previamente, j\u00e1 havia sido formada em seu ju\u00edzo, por fatores alheios ao seu pr\u00f3prio m\u00e9todo. Para isso, Schop sugeriu que a proposta de Kant parecia com a de um homem que, num baile de m\u00e1scaras, corteja toda noite uma beldade mascarada, na ilus\u00e3o de ter feito uma grande conquista. Depois de passar toda a noite dan\u00e7ando com a misteriosa dama, o homem retira-lhe a m\u00e1scara, surgindo, para sua surpresa, o rosto de sua pr\u00f3pria mulher!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moral da hist\u00f3ria:\u00a0 estamos sempre predispostos a nos apaixonarmos por todos os argumentos que agradam nossos ju\u00edzos j\u00e1 formados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS. A pesquisa que inspirou o presente post foi comentada no livro \u201cSubliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas\u201d, de Leonard Mlodinow, um excelente livro de divulga\u00e7\u00e3o da neuroci\u00eancia e da psicologia social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0George Marmelstein Lima (http:\/\/direitosfundamentais.net\/2013\/11\/18\/a-engenharia-reversa-da-argumentacao) A Engenharia Reversa da Argumenta\u00e7\u00e3o Coloque-se na posi\u00e7\u00e3o de um recrutador respons\u00e1vel pela sele\u00e7\u00e3o de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":116,"menu_order":6,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-514","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/P4gyB8-8i","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=514"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/514\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":518,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/514\/revisions\/518"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}