{"id":40,"date":"2013-06-09T20:41:45","date_gmt":"2013-06-09T23:41:45","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=40"},"modified":"2013-06-09T20:55:48","modified_gmt":"2013-06-09T23:55:48","slug":"incerteza","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/historia-do-tempo\/incerteza\/","title":{"rendered":"Incerteza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Para falar sobre a natureza do universo e discutir quest\u00f5es tais como se ele tem um come\u00e7o ou um fim, \u00e9 preciso ter clareza do que \u00e9 uma teoria cient\u00edfica. Numa vis\u00e3o mais simplista, a teoria \u00e9 apenas um modelo do universo, ou uma parte restrita de seu todo; um conjunto de regras que referem quantidades do modelo a observa\u00e7\u00f5es que possamos fazer. Ela existe apenas em nosso racioc\u00ednio e n\u00e3o apresenta qualquer outra realidade (seja l\u00e1 o que isso signifique). Uma teoria \u00e9 considerada boa quando satisfaz dois requisitos: descrever com precis\u00e3o uma grande categoria de observa\u00e7\u00f5es, com base num modelo que contenha apenas previs\u00f5es definidas quanto aos resultados de futuras observa\u00e7\u00f5es. Por exemplo, a teoria de Arist\u00f3teles de que tudo foi originado a partir dos quatro elementos, terra, ar, fogo e \u00e1gua, era suficientemente simples para qualificar, por\u00e9m n\u00e3o fazia qualquer previs\u00e3o definida. Por outro lado, a teoria da gravidade de Newton se baseou num modelo ainda mais simples, segundo o qual os corpos se atraem com for\u00e7a proporcional a uma quantidade chamada massa, e inversamente proporcional ao quadrado da dist\u00e2ncia entre elas. Previa, por\u00e9m, os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas, com um elevado grau de precis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo eventual da ci\u00eancia \u00e9 promover uma teoria \u00fanica que descreva todo o universo. Entretanto, a abordagem que a maioria dos cientistas segue atualmente \u00e9 separar o problema em duas partes. Primeiro existem as leis que explicam as mudan\u00e7as do universo ao longo do tempo. (Se soubermos como o universo se comporta em qualquer instante dado, estas leis f\u00edsicas nos dir\u00e3o como ele ser\u00e1 em qualquer instante posterior.) Em segundo lugar est\u00e1 a quest\u00e3o do estado inicial do universo. Algumas pessoas acreditam que a ci\u00eancia deveria se concentrar apenas na primeira parte: encaram a quest\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o inicial como assunto para a metaf\u00edsica ou para a religi\u00e3o. Diriam que Deus, sendo onipotente, poderia ter come\u00e7ado o universo conforme quisesse. Talvez seja assim, mas neste caso ele tamb\u00e9m poderia t\u00ea-lo feito desenvolver-se de maneira completamente arbitr\u00e1ria. Ainda mais: parece que escolheu faz\u00ea-lo evoluir de maneira bastante regular, de acordo com certas leis. \u00c9, ent\u00e3o, igualmente razo\u00e1vel supor que tamb\u00e9m existam leis governando o estado inicial. (*)<\/p>\n<p align=\"left\"><b><span style=\"font-size: xx-large;\">O princ\u00edpio da incerteza<\/span><\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O sucesso das teorias cient\u00edficas, particularmente a da gravidade de Newton, levou um cientista franc\u00eas, o marqu\u00eas de Laplace, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, a argumentar que o universo era absolutamente determin\u00edstico. Laplace sugeriu que devia haver um conjunto de leis que cient\u00edficas que permitiriam prever tudo que acontecesse no universo, bastando para tanto que se soubesse o estado completo do universo num determinado momento. Por exemplo, se conhec\u00eassemos as posi\u00e7\u00f5es e velocidades do Sol e dos planetas num tempo x, poder-se-ia, ent\u00e3o, usar as leis de Newton para calcular o estado do Sistema Solar em qualquer outro momento. O determinismo parece bastante \u00f3bvio neste caso, mas Laplace foi al\u00e9m, ao assumir que existem leis similares governando tudo mais, inclusive o comportamento humano.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A doutrina do determinismo cient\u00edfico foi fortemente rejeitada por quem julgava que ela infringia a liberdade divina de interfer\u00eancia no mundo; permaneceu entretanto a hip\u00f3tese padr\u00e3o da ci\u00eancia at\u00e9 os primeiros anos deste s\u00e9culo. Uma das primeiras indica\u00e7\u00f5es de que esta cren\u00e7a deveria ser abandonada apareceu quando os c\u00e1lculos dos cientistas ingleses Lord Rayleigh e Sir James Jeans sugeriram que um objeto aquecido, ou um corpo como uma estrela, deve irradiar energia numa raz\u00e3o infinita. De acordo com as leis em que se acreditava na \u00e9poca, um corpo aquecido deve emitir ondas eletromagn\u00e9ticas (como as ondas de r\u00e1dio, luz vis\u00edvel ou raios X) igualmente em todas as freq\u00fc\u00eancias. Deve, por exemplo, irradiar a mesma quantidade de energia em ondas com freq\u00fc\u00eancias entre um e dois trilh\u00f5es de ondas por segundo, como em ondas com freq\u00fc\u00eancias entre dois e tr\u00eas trilh\u00f5es de ondas por segundo. Mas, desde que o n\u00famero de ondas por segundo seja ilimitado, a energia total irradiada ser\u00e1 infinita.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A fim de evitar esse resultado obviamente rid\u00edculo, o cientista alem\u00e3o Max Planck sugeriu, em 1900, que a luz, os raios X e outras ondas n\u00e3o pudessem ser emitidos a uma raz\u00e3o arbitr\u00e1ria, mas apenas em determinadas quantidades que chamou de quanta. Cada quantum teria uma certa cota de energia, tanto maior quanto mais alta a freq\u00fc\u00eancia das ondas; assim, a uma freq\u00fc\u00eancia suficientemente alta, a emiss\u00e3o de um \u00fanico quantum exigiria mais energia do que a dispon\u00edvel. Portanto, a radia\u00e7\u00e3o em altas freq\u00fc\u00eancias seria reduzida e, ent\u00e3o, a raz\u00e3o de perda de energia de um corpo seria finita.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">(*)<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Provou-se que \u00e9 muito dif\u00edcil descobrir uma teoria que descreva todo o universo. Por isso divide-se o problema em diversas partes e inventam-se in\u00fameras teorias parciais. Cada uma delas descreve e prev\u00ea um n\u00famero limitado de categorias de observa\u00e7\u00e3o, relegando os efeitos de outras quantidades, ou os representando por conjuntos simples de n\u00fameros. Pode ser que esta abordagem seja completamente errada. Se tudo no universo, de maneira fundamental, depende de todo o resto, talvez seja imposs\u00edvel atingir uma solu\u00e7\u00e3o plena atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o das partes isoladas do problema. Ainda assim, foi esta certamente a forma com que se fez progressos no passado. O exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 novamente a teoria da gravidade de Newton, que afirma que a for\u00e7a gravitacional entre dois corpos depende apenas de um n\u00famero associado a cada corpo, sua massa, mas \u00e9, por outro lado, independente da mat\u00e9ria de que eles sejam feitos. N\u00e3o \u00e9 preciso, portanto, haver uma teoria da estrutura e constitui\u00e7\u00e3o do Sol e dos planetas para se calcular suas \u00f3rbitas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Entretanto, se descobrirmos de fato uma teoria completa, ela dever\u00e1, ao longo do tempo, ser compreendida, grosso modo, por todos e n\u00e3o apenas por alguns poucos cientistas. Ent\u00e3o devemos todos, fil\u00f3sofos, cientistas, e mesmo leigos, ser capazes de fazer parte das discuss\u00f5es sobre a quest\u00e3o de por que n\u00f3s e o universo existimos. Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo da raz\u00e3o humana; porque, ent\u00e3o, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus.<\/p>\n<p><b>(Uma Breve Hist\u00f3ria do Tempo &#8211; Stephen W. Hawking, Editora Rocco)<br \/>\nT\u00edtulo do original: A Brief History of the Time: From the Big Bang to Black Holes, 1988.<\/b><\/p>\n<hr \/>\n<p><i>O universo \u00e9 uma grande equa\u00e7\u00e3o onde somos o resultado. Temos apenas algumas inc\u00f3gnitas dessa equa\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para falar sobre a natureza do universo e discutir quest\u00f5es tais como se ele tem um come\u00e7o ou um fim, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":38,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-40","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/P4gyB8-E","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/40","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/40\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/40\/revisions\/48"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/38"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}