{"id":156,"date":"2013-06-10T02:50:56","date_gmt":"2013-06-10T05:50:56","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=156"},"modified":"2013-06-13T23:54:48","modified_gmt":"2013-06-14T02:54:48","slug":"rapida-utopia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/o-desconhecido\/rapida-utopia\/","title":{"rendered":"R\u00e1pida Utopia"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/music\/general\/unknowledgement_utopia.htm\" height=\"41\" width=\"68\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;A\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, velocidade, comunica\u00e7\u00e3o, linha de montagem, triunfo das massas, Holocausto: atrav\u00e9s das met\u00e1foras e das realidades que marcaram esses 100 \u00faltimos anos, aparece a verdadeira doen\u00e7a do progresso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Primeira regra: n\u00e3o se pode julgar um s\u00e9culo, sobretudo alguns anos antes de seu fim, sem recoloc\u00e1-lo na devida perspectiva hist\u00f3rica. Pensem no que teria respondido um ge\u00f3grafo do s\u00e9culo XV se lhe tivessem pedido uma s\u00edntese de seu s\u00e9culo em 1\u00ba de janeiro de 1490. Ou no que ter\u00edamos respondido se nos tivessem pedido um balan\u00e7o de 1989 um m\u00eas antes da queda do Muro de Berlim e da revolu\u00e7\u00e3o na Rom\u00eania.<\/p>\n<p align=\"justify\">Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidad\u00e3o do mundo ocidental \u00e9 diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra \u00e9 v\u00e1lida para cada s\u00e9culo, ela o \u00e9 um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental se imp\u00f5e gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um campon\u00eas chin\u00eas est\u00e1 hoje, para o bem ou para o mal, mais pr\u00f3ximo de um campon\u00eas franc\u00eas do que estava h\u00e1 dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Terceira regra: n\u00e3o se pode avaliar emocionalmente um s\u00e9culo estando dentro dele e sem proceder a compara\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas. O n\u00famero de pessoas que hoje morrem de fome no mundo nos causa horror. Mas o n\u00famero de pessoas que morriam de fome no s\u00e9culo passado tamb\u00e9m nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mundial da \u00e9poca. Segundo relatos de v\u00e1rios legados pontif\u00edcios, o pr\u00edncipe Vlad Tepes de Val\u00e1quia (cognominado Dr\u00e1cula), que empalava mulheres e crian\u00e7as enquanto se divertia com seus cortes\u00e3os, havia ordenado, s\u00f3 no ano de 1475, o massacre de 100.000 pessoas. Considerando que seu principado contava 500.000 habitantes, \u00e9 como se hoje o governo italiano ordenasse o massacre de 10 milh\u00f5es de cidad\u00e3os. O s\u00e9culo que chega ao fim \u00e9 o que presenciou o Holocausto, Hiroshima, os regimes dos Grandes irm\u00e3os e dos Pequenos Pais, os massacres do Camboja e assim por diante. N\u00e3o \u00e9 um balan\u00e7o tranq\u00fcilizador. Mas, como veremos, o horror desses acontecimentos n\u00e3o reside apenas na quantidade, que, certamente, \u00e9 assustadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Numa Europa com apenas algumas dezenas de milh\u00f5es de habitantes, os pogroms das Cruzadas, as cidades saqueadas durante a Guerra dos Trinta Anos representam um n\u00famero de v\u00edtimas que deveria deixar-nos sem voz. Ainda mais que os respons\u00e1veis eram honrados como her\u00f3is tanto nos livros de Hist\u00f3ria quanto nos retratos suntuosos que fazem a grandeza da hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n<p align=\"justify\">Pode-se julgar um s\u00e9culo pela dist\u00e2ncia existente entre seu sistema de valores e sua pr\u00e1tica cotidiana. Como se sabe, a hipocrisia permite dispor compromissos entre o reconhecimento te\u00f3rico dos valores e sua viola\u00e7\u00e3o. Ora, nosso s\u00e9culo talvez tenha sido menos hip\u00f3crita que os outros. Ele enunciou regras de conviv\u00eancia; certamente as violou, mas moveu e move processos p\u00fablicos contra essas viola\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o impede que elas se repitam, mas teve alguma influ\u00eancia sobre nossos comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande n\u00famero de cidad\u00e3os, sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por algu\u00e9m que queira manter sua trajet\u00f3ria na mesma cal\u00e7ada que a minha, e sei que meus filhos n\u00e3o receber\u00e3o cacetadas do filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indiv\u00edduos prepotentes tentam ainda hoje expulsar uma mulher negra do \u00f4nibus, mas a opini\u00e3o p\u00fablica os condena: h\u00e1 apenas dois s\u00e9culos, ter\u00edamos pensado agir como honestos cidad\u00e3os se tiv\u00e9ssemos investido uma parte de nosso pec\u00falio numa empresa que teria vendido essa mulher como escrava aos Estados Unidos. Parece que foi o que aconteceu com Voltaire.<\/p>\n<p align=\"justify\">Vejamos agora os aspectos amb\u00edguos deste s\u00e9culo. Ele ter\u00e1 sido o s\u00e9culo das massas. Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: \u00e9 muito importante o direito \u00e0 palavra, \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o, ao voto, exercer um cargo pol\u00edtico, e n\u00e3o avaliamos o que isso representa porque n\u00e3o vivemos em s\u00e9culos em que era normal um artes\u00e3o morar num casebre imundo e um senhor que n\u00e3o tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreender\u00e1 que alguma coisa mudou. As conquistas morais e pol\u00edticas deste s\u00e9culo, gra\u00e7as \u00e0s quais n\u00e3o se pode mais engravidar impunemente uma camponesa s\u00f3 porque se \u00e9 dono de terras, se pagam hoje pelo sistema de estrelato: aquela, que, em outros tempos, teria sido uma camponesa indefesa \u00e9 hoje assediada com a promessa de aparecer nua na capa de uma revista famosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nosso s\u00e9culo \u00e9 o da acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e cient\u00edfica, que se operou e continua a se operar em ritmos antes inconceb\u00edveis. Foram necess\u00e1rios milhares de anos para passar do barco a remo \u00e0 caravela ou da energia e\u00f3lica ao motor de explos\u00e3o; e em algumas d\u00e9cadas se passou do dirig\u00edvel ao avi\u00e3o, da h\u00e9lice ao turborreator e da\u00ed ao foguete interplanet\u00e1rio. Em algumas dezenas de anos, assistiu-se ao triunfo das teorias revolucion\u00e1rias de Einstein e a seu questionamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O custo dessa acelera\u00e7\u00e3o da descoberta \u00e9 a hiperespecializa\u00e7\u00e3o. Estamos em via de viver a trag\u00e9dia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais f\u00e1cil submeter a ci\u00eancia aos c\u00e1lculos do poder. Esse fen\u00f4meno est\u00e1 intimamente ligado ao fato de ter sido neste s\u00e9culo que os homens colocaram mais diretamente em quest\u00e3o a sobreviv\u00eancia do planeta. Um excelente qu\u00edmico pode imaginar um excelente desodorante, mas n\u00e3o possui mais o saber que lhe permitiria dar-se conta de que seu produto ir\u00e1 provocar um buraco na camada de oz\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">O equivalente tecnol\u00f3gico da separa\u00e7\u00e3o dos saberes foi a linha de montagem. Nesta, cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfa\u00e7\u00e3o de ver o produto acabado, cada um \u00e9 tamb\u00e9m liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso ocorre com freq\u00fc\u00eancia, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite tamb\u00e9m fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E r\u00e1pido. Tudo se passa num ritmo acelerado, desconhecido dos s\u00e9culos anteriores. Sem essa acelera\u00e7\u00e3o, o Muro de Berlim poderia ter durado mil\u00eanios, como a Grande Muralha da China. \u00c9 bom que tudo se tenha resolvido no espa\u00e7o de trinta anos, mas pagamos o pre\u00e7o dessa rapidez. Poder\u00edamos destruir o planeta num dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nosso s\u00e9culo foi o da comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea. Hern\u00e1n Cort\u00e9s p\u00f4de destruir uma civiliza\u00e7\u00e3o e, antes que a not\u00edcia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus empreendimentos. Hoje, massacres da Pra\u00e7a da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a rea\u00e7\u00e3o de todo o mundo civilizado. Mas informa\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas em excesso, provenientes de todos os pontos do globo, produzem um h\u00e1bito. O s\u00e9culo da comunica\u00e7\u00e3o transformou a informa\u00e7\u00e3o em espet\u00e1culo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nosso s\u00e9culo presenciou o triunfo da a\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia. Hoje, aperta-se um bot\u00e3o e entra-se em comunica\u00e7\u00e3o com Pequim. aperta-se um bot\u00e3o e um pa\u00eds inteiro explode. Aperta-se um bot\u00e3o e um foguete \u00e9 lan\u00e7ado a Marte. A a\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia salva numerosas vidas, mas irresponsabiliza o crime.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ci\u00eancia, tecnologia, comunica\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, princ\u00edpio da linha de montagem: tudo isso tornou poss\u00edvel o Holocausto. A persegui\u00e7\u00e3o racial e o genoc\u00eddio n\u00e3o foram uma inven\u00e7\u00e3o de nosso s\u00e9culo e herdamos do passado o h\u00e1bito de brandir a amea\u00e7a de um compl\u00f4 judeu para desviar o descontentamento dos explorados. Mas o que torna t\u00e3o terr\u00edvel o genoc\u00eddio nazista \u00e9 que foi r\u00e1pido, tecnologicamente eficaz e buscou o consenso servindo-se das comunica\u00e7\u00f5es de massa e do prest\u00edgio da ci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Foi f\u00e1cil fazer passar por ci\u00eancia uma teoria pseudocient\u00edfica, porque, num regime de separa\u00e7\u00e3o dos saberes, o qu\u00edmico que aplicava os gases asfixiantes n\u00e3o julgava necess\u00e1rio ter opini\u00f5es sobre a antropologia f\u00edsica. O Holocausto foi poss\u00edvel porque se podia aceit\u00e1-lo e justific\u00e1-lo sem ver seus resultados. Al\u00e9m de um n\u00famero, afinal restrito, de pessoas respons\u00e1veis e de executantes diretos (s\u00e1dicos e loucos), milh\u00f5es de outros puderam colaborar \u00e0 dist\u00e2ncia, realizando cada qual um gesto que nada tinha de aterrador.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, este s\u00e9culo soube fazer o melhor de si o pior de si. Tudo o que aconteceu de terr\u00edvel a seguir n\u00e3o foi sen\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o, sem grande inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O s\u00e9culo do triunfo tecnol\u00f3gico foi tamb\u00e9m o da descoberta da fragilidade. Um moinho de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador n\u00e3o tem defesa diante da m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de um garoto precoce. O s\u00e9culo est\u00e1 estressado porque n\u00e3o sabe de quem se deve defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos. Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas n\u00e3o o de eliminar os res\u00edduos. Porque a sujeira nascia da indig\u00eancia, que podia ser reduzida, ao passo que os res\u00edduos (inclusive os radioativos) nascem do bem-estar que ningu\u00e9m quer mais perder. Eis porque nosso s\u00e9culo foi o da ang\u00fastia e da utopia de cur\u00e1-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embara\u00e7a num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em p\u00fablico, tenta purifica\u00e7\u00f5es expiat\u00f3rias \u00e0s quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque a\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia e linha de montagem impedem identific\u00e1-lo no in\u00edcio do processo. Espa\u00e7o, tempo, informa\u00e7\u00e3o, crime, castigo, arrependimento, absolvi\u00e7\u00e3o, indigna\u00e7\u00e3o, esquecimento, descoberta, cr\u00edtica, nascimento, longa vida, morte&#8230; tudo em alt\u00edssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso s\u00e9culo \u00e9 o do enfarte.&#8221;<\/p>\n<p align=\"right\"><b>(ECO, Umberto. O segundo di\u00e1rio m\u00ednimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994)<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, velocidade, comunica\u00e7\u00e3o, linha de montagem, triunfo das massas, Holocausto: atrav\u00e9s das met\u00e1foras e das realidades que marcaram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":135,"menu_order":6,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-156","page","type-page","status-publish","hentry"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/P4gyB8-2w","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":158,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/156\/revisions\/158"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}