{"id":128,"date":"2013-06-10T02:25:45","date_gmt":"2013-06-10T05:25:45","guid":{"rendered":"http:\/\/biucsproject.org\/blog\/?page_id=128"},"modified":"2013-06-10T02:25:45","modified_gmt":"2013-06-10T05:25:45","slug":"aprendizado-social","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/biucsproject.org\/blog\/reforma-educacional\/aprendizado-social\/","title":{"rendered":"Aprendizado Social"},"content":{"rendered":"<p>OLIVEIRA, Marta Kohl.\u00a0<b>Vygotsky<\/b>: aprendizado e desenvolvimento; um processo s\u00f3cio-hist\u00f3rico.<br \/>\nS\u00e3o Paulo: Scipione, 1993.<\/p>\n<p align=\"center\"><b><span style=\"font-size: x-large;\">Os fundamentos culturais e sociais do desenvolvimento cognitivo:<br \/>\na pesquisa intercultural na \u00c1sia Central<\/span><\/b><\/p>\n<p align=\"justify\"><i>O livro Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais, (20), em que essa pesquisa intelectual \u00e9 relatada, foi publicado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1974, mais de quarenta anos depois de sua conclus\u00e3o. Nos Estados Unidos, foi publicado em 1976 e, em 1990, no Brasil. Na colet\u00e2nea Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem, (3), tamb\u00e9m h\u00e1 um artigo de Luria intitulado \u201cDiferen\u00e7as culturais de pensamento\u201d, que resume os resultados dessa pesquisa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\"><i><\/i>Al\u00e9m de ter se dedicado ao estudo das fun\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, no n\u00edvel da organiza\u00e7\u00e3o cerebral, Luria tamb\u00e9m foi quem, entre os colaboradores de Vygotsky, desenvolveu a pesquisa de maior alcance sobre a quest\u00e3o das diferen\u00e7as culturais. Com o objetivo de estudar como os processos psicol\u00f3gicos superiores s\u00e3o constru\u00eddos em diferentes contextos culturais, Luria conduziu um extenso trabalho de campo sobre o funcionamento psicol\u00f3gico de moradores de vilarejos e \u00e1reas rurais de uma regi\u00e3o remota e pouco desenvolvida da \u00c1sia Central. Vygotsky n\u00e3o participou diretamente desse trabalho, por encontrar-se j\u00e1 bastante doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">A regi\u00e3o em que o estudo foi realizado (Usbequist\u00e3o e Quirguist\u00e3o) situa-se na \u00c1sia Central, pr\u00f3xima \u00e0 fronteira com o Afeganist\u00e3o. Essa era uma regi\u00e3o bastante isolada, estagnada economicamente, com alto grau de analfabetismo, predomin\u00e2ncia da religi\u00e3o mu\u00e7ulmana e do trabalho rural em propriedades individuais e isoladas. Na \u00e9poca em que o trabalho de campo foi realizado (1931-1932), a regi\u00e3o estava sofrendo um processo de r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es sociais, com a implanta\u00e7\u00e3o de fazendas coletivas, mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura e escolariza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Esse per\u00edodo de transforma\u00e7\u00f5es propiciava uma oportunidade privilegiada para a observa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre vida social e processos psicol\u00f3gicos, t\u00e3o importante na constru\u00e7\u00e3o de uma psicologia hist\u00f3rico-cultural. A pergunta fundamental que Luria fez foi: o que acontece com os indiv\u00edduos que passam por essas transforma\u00e7\u00f5es sociais, em termos de seu funcionamento intelectual? Diferentes indiv\u00edduos, com v\u00e1rios graus de escolariza\u00e7\u00e3o e de inser\u00e7\u00e3o no trabalho mais moderno das fazendas coletivas, foram inclu\u00eddos na pesquisa, para permitir a compara\u00e7\u00e3o de seu desempenho em diversos tipos de tarefas psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Luria e o grupo de pesquisadores que o acompanhou procuraram relacionar-se com os moradores da regi\u00e3o estudada, convivendo com eles nos ambientes de sua vida cotidiana, antes de come\u00e7arem o trabalho propriamente dito. Depois os dados de pesquisa foram coletados em longas entrevistas nas quais eram apresentadas tarefas para serem resolvidas pelo entrevistado. O experimentador registrava as respostas dadas e provocava os sujeitos com novas perguntas para obter, de um mesmo indiv\u00edduo, outras reflex\u00f5es e outras possibilidades de racioc\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Conforme vimos no cap\u00edtulo 4, a metodologia de pesquisa utilizada por Luria \u00e9 de extrema contemporaneidade: a imers\u00e3o do pesquisador no contexto da pesquisa, a entrevista longa e n\u00e3o estruturada, a interven\u00e7\u00e3o do pesquisador para provocar comportamentos relevantes a serem observados s\u00e3o estrat\u00e9gias muito utilizadas e valorizadas na pesquisa atual em ci\u00eancias humanas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\"><i><\/i>V\u00e1rios tipos de tarefas foram utilizadas ao longo das entrevistas: tarefas de percep\u00e7\u00e3o (nomea\u00e7\u00e3o e agrupamento de cores, nomea\u00e7\u00e3o e agrupamento de figuras geom\u00e9tricas, resposta a ilus\u00f5es visuais); de abstra\u00e7\u00e3o e generaliza\u00e7\u00e3o (compara\u00e7\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o e agrupamento de objetos, defini\u00e7\u00e3o de conceitos); de dedu\u00e7\u00e3o e infer\u00eancia (estabelecimento de conclus\u00f5es l\u00f3gicas a partir de informa\u00e7\u00f5es dadas); de solu\u00e7\u00e3o de problemas matem\u00e1ticos a partir de situa\u00e7\u00f5es hipot\u00e9ticas apresentadas oralmente; de imagina\u00e7\u00e3o (elabora\u00e7\u00e3o de perguntas ao experimentador); de auto-an\u00e1lise (avalia\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas).<\/p>\n<p align=\"justify\">Em todas as tarefas apresentadas, os resultados obtidos apontaram para uma mesma dire\u00e7\u00e3o: houve altera\u00e7\u00f5es fundamentais na atividade psicol\u00f3gica acompanhando o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o e escolariza\u00e7\u00e3o e as mudan\u00e7as nas formas b\u00e1sicas de trabalho. Isto \u00e9, os sujeitos mais escolarizados e mais envolvidos em situa\u00e7\u00f5es de trabalho coletivo exibiram um comportamento mais sofisticado do que os analfabetos e os camponeses que trabalhavam individualmente. Vamos apresentar aqui apenas alguns resultados espec\u00edficos, como exemplo dos tipos de respostas dadas \u00e0s tarefas utilizadas na pesquisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em uma das tarefas de classifica\u00e7\u00e3o foram apresentados desenhos de quatro objetos, sendo tr\u00eas pertencentes a uma categoria e o quarto a outra categoria (por exemplo, \u201cmartelo\u201d, \u201cserra\u201d, \u201cmachadinha\u201d, todos ferramentas, e \u201ctora de madeira\u201d, o \u00fanico objeto que n\u00e3o pertencia \u00e0 categoria das ferramentas). Perguntava-se ao entrevistado quais eram os tr\u00eas objetos semelhantes, que poderiam ser colocados num mesmo grupo, e qual o que n\u00e3o pertencia a esse grupo. Os mais escolarizados e inseridos em situa\u00e7\u00f5es de trabalho mais modernizadas tendiam a colocar as tr\u00eas ferramentas juntas e indicar a tora de madeira como o \u00fanico objeto diferente. J\u00e1 os analfabetos e que trabalhavam como camponeses isolados n\u00e3o faziam esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o dos objetos. Diziam que os quatro objetos deviam ser colocados juntos, porque o serrote serra a tora, a machadinha corta a tora e precisamos da madeira para pregar alguma coisa com o martelo: todos os objetos s\u00e3o usados juntos e nenhum deles pode ser separado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em uma varia\u00e7\u00e3o da mesma tarefa, apresentava-se um conjunto de desenhos de tr\u00eas objetos que pertenciam a uma mesma categoria (por exemplo, \u201c\u00e1rvore\u201d, \u201cflor\u201d e \u201cespiga\u201d, todos vegetais) e pedia-se aos sujeitos que selecionassem um quarto objeto adequado, de um grupo de dois ou tr\u00eas outros desenhos (\u201croseira\u201d e \u201cp\u00e1ssaro\u201d, por exemplo). Novamente os mais escolarizados e modernizados tendiam a selecionar o objeto pertencente \u00e0 mesma categoria que os outros tr\u00eas (\u201croseira\u201d, no exemplo citado). Os analfabetos e camponeses isolados tendiam a fazer outro tipo de rela\u00e7\u00e3o entre os objetos, selecionando, por exemplo, o p\u00e1ssaro para compor o conjunto: [LURIA, p. 99, (20).&gt;] \u201c&#8230; a andorinha. H\u00e1 uma \u00e1rvore aqui e uma flor \u2013 \u00e9 um lugar bonito. A andorinha vai sentar aqui e cantar\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Nesta tarefa era utilizado o silogismo, um tipo de dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica: de duas proposi\u00e7\u00f5es chamadas premissas, \u00e9 poss\u00edvel extrair uma conclus\u00e3o l\u00f3gica. Por exemplo:<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Premissas:<\/i><br \/>\n<i>1 \u2013 Todo homem \u00e9 mortal.<\/i><br \/>\n<i>2 \u2013 Pedro \u00e9 homem.<\/i><br \/>\n<i>Conclus\u00e3o: Pedro \u00e9 mortal.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Em outro tipo de tarefa, pedia-se aos sujeitos que chegassem a uma conclus\u00e3o com base em informa\u00e7\u00f5es dadas pelo experimentador. O experimentador informava, por exemplo, que \u201cNo norte, onde h\u00e1 neve, todos os ursos s\u00e3o brancos\u201d e que \u201cNovaya Zemlya fica no norte e l\u00e1 sempre neva\u201d. A seguir perguntava: \u201cDe que cor s\u00e3o os ursos em Novaya Zemlya?\u201d. A conclus\u00e3o l\u00f3gica a partir das duas informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas \u00e9 a de que os ursos em Novaya Zemlya s\u00e3o brancos. Essa era a conclus\u00e3o apresentada pelos sujeitos mais escolarizados e que trabalhavam em fazendas coletivas. J\u00e1 os menos escolarizados e que trabalhavam como camponeses isolados tinham dificuldade com esse racioc\u00ednio abstrato, baseando suas respostas em experi\u00eancias pessoais e negando-se a fazer infer\u00eancias sobre fatos n\u00e3o vivenciados: [LURIA, p. 148. (20).] \u201cEu n\u00e3o sei de que cor s\u00e3o os ursos l\u00e1. Eu nuca os vi\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\"><b>Tarefa de percep\u00e7\u00e3o utilizada por Luria<br \/>\nFiguras apresentadas aos sujeitos para serem agrupadas e nomeadas:<\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/images\/reforma_figura01.jpg\" width=\"729\" height=\"232\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\">Exemplos de agrupamentos de figuras realizados por camponeses pouco escolarizados e a justificativa que eles deram para agruparem desse modo:<\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/images\/reforma_figura02a.jpg\" width=\"225\" height=\"60\" border=\"0\" \/>\u201cMolduras de janelas\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/images\/reforma_figura02b.jpg\" width=\"225\" height=\"72\" border=\"0\" \/>\u201cRel\u00f3gios\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/images\/reforma_figura02c.jpg\" width=\"225\" height=\"69\" border=\"0\" \/>\u201cEstes s\u00e3o parecidos \u2013 isto \u00e9 uma gaiola e esta \u00e9 a gaveta de alimenta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da gaiola.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/images\/reforma_figura02d.jpg\" width=\"225\" height=\"69\" border=\"0\" \/>\u201cEste \u00e9 um pequeno balde para leite coalhado, e esta \u00e9 uma panela para o creme.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Nas demais tarefas utilizadas nesse estudo as diferen\u00e7as observadas entre os grupos de sujeitos apontavam sempre na mesma dire\u00e7\u00e3o: \u201cmudan\u00e7as nas formas pr\u00e1ticas de atividade, e especialmente a reorganiza\u00e7\u00e3o da atividade baseada na escolaridade forma, produziram altera\u00e7\u00f5es qualitativas nos processos de pensamento dos indiv\u00edduos estudados\u201d. Baseado nas proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Vygotsky, Luria identificou dois modos b\u00e1sicos de pensamento que caracterizam essas altera\u00e7\u00f5es qualitativas associadas \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais ocorridas na regi\u00e3o estudada: o modo\u00a0<b>gr\u00e1fico-funcional<\/b>\u00a0e o modo\u00a0<b>categorial<\/b>. Esses dois modos de pensamento estavam presentes, como um contraste entre os diferentes grupos de sujeitos, em todas as tarefas inclu\u00eddas nesse estudo intercultural.<\/p>\n<p align=\"justify\">O modo chamado gr\u00e1fico-funcional refere-se ao pensamento baseado na experi\u00eancia individual, em contextos concretos, em situa\u00e7\u00f5es reais vivenciadas pelo sujeito. \u00c9 chamado \u201cgr\u00e1fico\u201d no sentido de que se baseia em configura\u00e7\u00f5es perceptuais, presentes no campo da experi\u00eancia do sujeito 0 como no caso das figuras<\/p>\n<p align=\"center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/biucsproject.org\/images\/reforma_figura03.jpg\" width=\"319\" height=\"67\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\">que \u201cse parecem porque ambas t\u00eam pontinhos\u201d, sem que sejam feitas rela\u00e7\u00f5es entre as figuras e as categorias mais abstratas de quadrados e tri\u00e2ngulos. \u00c9 chamado \u201cfuncional\u201d porque refere-se \u00e0s rela\u00e7\u00f5es concretas entre os objetos, inseridos em situa\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas de uso \u2013 como no caso da tora de madeira classificada como o serrote porque o serrote serra a tora.<\/p>\n<p align=\"justify\">O modo de pensamento chamado categoria refere-se ao pensamento baseado em categorias abstratas, \u00e0 capacidade de lidar com atributos gen\u00e9ricos dos objetos, sem refer\u00eancia aos contextos pr\u00e1ticos em que o sujeito se relaciona concretamente com os objetos, sem refer\u00eancia aos contextos pr\u00e1ticos em que o sujeito se relaciona concretamente com os objetos. O indiv\u00edduo que funciona psicologicamente de forma categorial \u00e9 capaz de desvincular-se das situa\u00e7\u00f5es concretas e trabalhar com objetos de forma descontextualizada. Assim, por exemplo, independentemente do uso conjunto que o sujeito fa\u00e7a do serrote e da tora de madeira, ele \u00e9 capaz de classificar esses objetos em dois grupos diferentes: ferramentas e n\u00e3o ferramentas. Do mesmo modo, \u00e9 capaz de concluir, a partir de informa\u00e7\u00f5es verbais, que em Novaya Zemlya os ursos s\u00e3o brancos, mesmo que nunca tenha estado l\u00e1, ou nunca tenha visto os tais ursos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Novaya Zemlya \u00e9 tamb\u00e9m chamada Nova Zembla, em portugu\u00eas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Conforme mencionado anteriormente, os indiv\u00edduos mais escolarizados e com um tipo de trabalho mais modernizado \u00e9 que tendiam a comportar-se de modo categorial. \u00c9 interessante observar que alguns sujeitos, principalmente aqueles com pequeno grau de escolaridade e uma atividade profissional intermedi\u00e1ria entre formas mais tradicionais e formas modernas, apresentavam um desempenho \u201cem transi\u00e7\u00e3o\u201d nas tarefas psicol\u00f3gicas utilizadas neste estudo. Isto \u00e9, ora comportavam-se de modo categorial, ora apresentavam um racioc\u00ednio mais preso a situa\u00e7\u00f5es concretas e \u00e0 experi\u00eancia pessoal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com esses indiv\u00edduos, Luria p\u00f4de observar claramente o papel da interven\u00e7\u00e3o do pesquisador na zona de desenvolvimento proximal. Luria freq\u00fcentemente provocava a reflex\u00e3o dos entrevistados contrapondo \u00e0 resposta deles uma resposta dada por uma pessoa hipot\u00e9tica (\u201cMas uma pessoa me disse que uma dessas coisas n\u00e3o pertence a esse grupo\u201d, por exemplo) ou fazendo um questionamento expl\u00edcito da resposta do sujeito (\u201cEst\u00e1 certo, mas um martelo, uma serra e uma machadinha s\u00e3o todos ferramentas\u201d). Para aqueles sujeitos \u201cem transi\u00e7\u00e3o\u201d essa interven\u00e7\u00e3o ativa do pesquisador muitas vezes resultava numa transforma\u00e7\u00e3o do seu modo de pensamento: ao longo da realiza\u00e7\u00e3o da tarefa o indiv\u00edduo passava do modo gr\u00e1fico-funcional ao categorial. Essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontecia com os que raciocinavam, consistentemente, de modo gr\u00e1fico-funcional. Parece, justamente, que a interfer\u00eancia externa provoca transforma\u00e7\u00e3o vis\u00edvel apenas quando o novo modo de pensamento j\u00e1 est\u00e1 presente, \u201cem semente\u201d, no pr\u00f3prio sujeito. Esta \u00e9 exatamente a id\u00e9ia da interven\u00e7\u00e3o na zona de desenvolvimento proximal e da promo\u00e7\u00e3o de processos de desenvolvimento a partir de situa\u00e7\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p align=\"justify\">As rela\u00e7\u00f5es entre as diferen\u00e7as no modo de funcionamento intelectual e as transforma\u00e7\u00f5es no modo de vida s\u00e3o bastante evidentes no que se refere ao processo de escolariza\u00e7\u00e3o formal. A escola \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o social onde o conhecimento \u00e9 objeto privilegiado da aten\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, sem conex\u00e3o imediata com situa\u00e7\u00f5es de vida real. Os sujeitos que passam pela escola acostumam-se a trabalhar com id\u00e9ias e conceitos de forma descontextualizada, sem refer\u00eancia ao dom\u00ednio do concreto. As ci\u00eancias, cujo conhecimento acumulado \u00e9 transmitido na escola, constroem, ao longo de sua hist\u00f3ria, modos do organizar o real justamente de forma categorial.<\/p>\n<p align=\"justify\">No que se refere aos processos de moderniza\u00e7\u00e3o no trabalho, particularmente de implanta\u00e7\u00e3o das fazendas coletivas no caso da regi\u00e3o estudada por Luria, esses envolvem o planejamento de a\u00e7\u00f5es coletivas, a tomada de decis\u00f5es com base em crit\u00e9rios que ultrapassam as necessidades e motiva\u00e7\u00f5es individuais, a substitui\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 circunstancial e particular pelo que \u00e9 previs\u00edvel, geral e compartilhado. Essas caracter\u00edsticas do modo de trabalho parecem propiciar a emerg\u00eancia de novas formas de funcionamento intelectual.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 importante mencionar que as rela\u00e7\u00f5es entre contextos culturais e processos psicol\u00f3gicos superiores, estudadas por Luria neste amplo projeto de investiga\u00e7\u00e3o, s\u00e3o, ainda hoje, objeto de grande controv\u00e9rsia na \u00e1rea da psicologia. Por um lado a psicologia tradicional n\u00e3o leva em conta as rela\u00e7\u00f5es entre cultura e pensamento, buscando a compreens\u00e3o do funcionamento psicol\u00f3gico como um fen\u00f4meno universal. Estudos como o de Luria, por outro lado, constroem uma diferencia\u00e7\u00e3o entre modos de funcionamento intelectual que, ao romper com a universalidade dos processos psicol\u00f3gicos, podem levar a uma valoriza\u00e7\u00e3o de um dos modos de funcionamento como sendo o mais sofisticado, mais complexo, mais adequado. Como o referencial privilegiado da psicologia \u00e9 a sociedade urbana, moderna, escolarizada, com desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, o modo de funcionamento psicol\u00f3gico associado a esse tipo de inser\u00e7\u00e3o do homem no mundo tende a ser tomado como o modo mais avan\u00e7ado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Michael Cole, um dos principais estudiosos contempor\u00e2neos das rela\u00e7\u00f5es entre cultura e pensamento, manifesta sua preocupa\u00e7\u00e3o com essa quest\u00e3o no pr\u00f3logo \u00e0 obra de Luria: [COLE. p. 15-16 (7).] \u201cSeu objetivo geral era mostrar as ra\u00edzes s\u00f3cio hist\u00f3ricas de todos os processos cognitivos b\u00e1sicos; a estrutura de pensamento depende da estrutura dos tipos de atividades dominantes em diferentes culturas. Desse conjunto de premissas, segue-se que o pensamento pr\u00e1tico vai predominar em sociedades caracterizadas pela manipula\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de objetos e que formas mais \u2018abstratas\u2019 de atividade \u2018te\u00f3rica\u2019 em sociedades tecnol\u00f3gicas v\u00e3o induzir a pensamentos mais abstratos, te\u00f3ricos. O paralelo entre o desenvolvimento social e individual produz uma forte tend\u00eancia \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de todas as diferen\u00e7as comportamentais em termos de desenvolvimento. [&#8230;] Minha interpreta\u00e7\u00e3o pessoal desse tipo de dados \u00e9 um pouco distinta, uma vez que sou um tanto c\u00e9tico quanto \u00e0 utilidade da aplica\u00e7\u00e3o de teorias do desenvolvimento em estudos comparativos de culturas. Assim, aquilo que Luria interpreta como aquisi\u00e7\u00e3o de novos modos de pensamento, tenho tend\u00eancia a interpretar como mudan\u00e7as na aplica\u00e7\u00e3o de modos previamente dispon\u00edveis aos problemas particulares e contextos do discurso representados pela situa\u00e7\u00e3o experimental. Entretanto, o valor desse livro n\u00e3o depende da nossa interpreta\u00e7\u00e3o dos resultados de Luria. Como ele enfatiza em diversas passagens, o texto representa um projeto-piloto ampliado que jamais poder\u00e1 ser repetido. Ser\u00e1 tarefa de outros pesquisadores, trabalhando naquelas partes do mundo em que ainda existem sociedades tradicionais, aperfei\u00e7oar a interpreta\u00e7\u00e3o desses achados\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OLIVEIRA, Marta Kohl.\u00a0Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento; um processo s\u00f3cio-hist\u00f3rico. S\u00e3o Paulo: Scipione, 1993. 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